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O Segundo Olhar, de Mario Quintana
O Segundo Olhar, de Mario Quintana

OLHAR DE QUINTANA

 

Poeta gaúcho ganha nova antologia que ressalta vigor, variedade temática e complexidade de seus versos.

 

Algo curioso na obra do poeta Mario Quintana (1906-1994) é o fato de ser um autor com um número de antologias poéticas compilando sua obra em quantidade quase igual a dos livros que efetivamente publicou em vida. Uma delas ele mesmo organizou, as outras foram organizadas por nomes importantes da academia, como Regina Zilberman, Tânia Franco Carvalhal, Fausto Cunha e, até, Rubem Braga e Paulo Mendes Campos selecionaram a sua, a clássica NOVA ANTOLOGIA POÉTICA, de 1966. Agora, o escritor paulista João Anzanello Carrascoza, premiado contista e romancista e autor de TRILOGIA DO ADEUS e AQUELA ÁGUA TODA, apresenta mais uma, O SEGUNDO OLHAR, com um critério de seleção que desafia classificações.

 

- Em sua carreira, Quintana usou o mote de compor um livro em vários de seus poemas. O ato de falar da obra, da dificuldade de escrever, de como seri um último poema, tudo isso estava já mais ou menos disperso ao longo de seus livros. Decidi organizar o novo livro de um modo que um poema puxava outro. Há um conectivo de contiguidade. Um texto leva ao outro, às vezes por semelhança, às vezes por oposição, às vezes por causa e efeito – explica Carrascoza.

 

Assim, O SEGUNDO OLHAR é aberto com um irônico poema curto chamado EPÍGRAFE PARA UMA ANTOLOGIA LÍRICA. (“Amor, quantos crimes se cometem em teu nome!”). Embora seja preciso dizer que, nesse caso, o uso do poema como uma epígrafe de fato contraria explicitamente o sarcasmo que o verso tinha em sua versão original. Segue-se um poema no qual Quintana fala de dedicatórias, então vai-se a um poema que se chama ele próprio DEDICATÓRIA, e assim por diante.

 

A seleção é eclética, reunindo lado a lado obras compostas nos primeiros livros, como os sonetos de A RUA DOS CATAVENTOS (1940) ou as CANÇÕES (1946) ao lado das quadras de ESPELHO MÁGICO (1951), dos aforismos de O CADERNO H ou das divagações de ESCONDERIJOS DO TEMPO (1980).

 

- Há uma evolução na obra do Quintana que se dá dentro de seu universo criativo. É difícil fazer antologia de um autor que não tenha altos e baixos, planaltos e planícies, e sim um horizonte sempre na linha. Embora o próprio Quintana brincasse que a linha reta era a menos original. Ele é, com certeza, um poeta que precisa ser olhado de novo – avalia Carrascoza.

 

TÍTULO DO LIVRO RESUME O ESPÍRITO DA COMPILAÇÃO

 

O título da antologia foi retirado de AS COISAS, um poema de Quintana que também resume o espírito desta nova compilação: “– essas coisas que parecem / não terem beleza / nenhuma / - é simplesmente porque / não houve nunca quem lhes desse ao menos / um segundo / olhar”. Um espírito que pautou a carreira de Quintana em mais de um sentido. Ao longo da sua trajetória literária, o poeta mais de uma vez republicou em novos livros poemas antigos que considerava não haverem tido a devida ressonância em sua publicação original. E, claro, Quintana também foi um observador que fez do segundo olhar sua matéria poética.

 

- Esse poema de certa forma dá um norte para o volume. Porque é nesse segundo olhar que sinto que estão os traços mais marcantes da poesia do Quintana. Você olha uma coisa. O Quintana olhava essa coisa um pouco mais e dali saía o poema, o lirismo, o humor. Quando ele fala que o K parece uma letra andante, por exemplo, a gente vê que poderia ter chegado a essa mesma comparação se tivesse olhado um pouco mais, e ele olhou – diz Carrascoza.

 

Livro: O SEGUNDO OLHAR – De Mario Quintana – Antologia organizada por João Anzanello Carrascoza – Companhia das Letras, 144 páginas.

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno/Carlos André Moreira (carlos.moreira@zerohora.com.br) em 20/08/2018