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Século 21 e Milhares de Escolas Desconectadas
Século 21 e Milhares de Escolas Desconectadas

O FIO DESENCAPADO DA EDUCAÇÃO

Em pleno século 21, há ainda milhares de escolas completamente desconectadas

 

Imagine duas cenas:

De um lado, em Hong Kong, jovens ajustam seus óculos de realidade aumentada enquanto um Einstein holográfico explica teoria dos jogos. O zumbido constante dos servidores lembra que, ali, a energia é estável, a conexão é veloz e o futuro já está acontecendo.

 

Do outro, no coração da Amazônia, a professora Edna pega um barco e viaja horas até a lan house mais próxima. Ela quer baixar vídeos de biologia para levar à sua turma. No caminho de volta, o barulho do gerador a diesel marca o ritmo da precariedade. Durante a aula, o computador geme ao tentar abrir os arquivos pesados.

 

As duas cenas acontecem no mesmo planeta e no mesmo dia. Só que, em uma, a inteligência artificial é companheira de aula; na outra, é apenas uma sigla distante.

 

Sem conexão, não há futuro digital

A inteligência artificial não flutua no éter. Ela depende de cabos, antenas, tomadas e de professores que saibam usá-la de modo crítico, saudável e criativo. Energia elétrica confiável, internet estável e equipamentos minimamente funcionais são o alicerce daquilo que hoje se vende como “transformação digital”.

 

Ignorar essa base é condenar a IA educacional a ser privilégio de poucos, transformando-a em mais um apartheid tecnológico. No Brasil, segundo a pesquisa TIC Educação 2023, mais de 90% das escolas públicas têm algum tipo de conexão, mas só uma parte delas tem acesso adequado e dispositivos digitais suficientes para o uso pedagógico, com grandes disparidades regionais e entre escolas públicas e privadas. Em pleno século 21, há ainda milhares de escolas completamente desconectadas. A promessa de uma educação inteligente pode virar apenas mais uma vitrine de desigualdade.

 

Imagens que ficam

Não é preciso recorrer à ficção para entender a gravidade da situação. No semiárido brasileiro, tablets doados são guardados em freezers desligados, improvisados como caixas térmicas para protegê-los do calor. Em Zanzibar, as aulas de IA só acontecem quando o sol alimenta os painéis solares. E na periferia de Daca, Bangladesh, um celular dos anos 2010 circula como tesouro coletivo, com tela rachada e 12 segundos de espera para carregar cada frase.

 

Essas imagens parecem absurdas, mas são reais. E mostram que o problema não está em falta de criatividade, mas na falta de alicerces, do que forma a base para que tudo funcione como deveria.

 

E quando a internet chega?

E quando a escola tem energia e conexão estáveis? Surge, então, um outro risco, mais invisível: o da captura e vigilância. Governança de dados não é detalhe técnico; é questão política. Se os sistemas que registram trajetórias estudantis forem usados para controle disciplinar ou para alimentar interesses privados, a IA se torna mais uma engrenagem de vigilância, e não de emancipação.

 

Esse não é um receio teórico. Plataformas de monitoramento como a Proctorio, que gravava alunos em suas casas e marcava “comportamentos suspeitos”, já foram alvo de escândalos por práticas invasivas. A empresa foi alvo de protestos de estudantes e até ações judiciais. Na China, escolas testaram softwares de “detecção de emoções”, com câmeras tentando avaliar se os alunos estavam atentos. Quando a educação entrega seus dados sem mediação crítica, corre o risco de transformar carteiras escolares e mesas de estudo em celas digitais.

 

A decisão política

É por isso que infraestrutura não é detalhe técnico, é justiça social aplicada ao chão da escola. A IA na educação não é um upgrade técnico, mas uma decisão política. Podemos escolher entre carteiras que libertam ou celas digitais que vigiam.

 

A mensagem principal aqui é que não basta celebrar os avanços da IA. Precisamos encarar uma pergunta desconfortável: como falar de algoritmos sofisticados se ainda faltam lápis, professores e fios que conectam?

 

O fio da esperança

Entre geradores a diesel e tablets em freezers, surge também outro Brasil: aquele que transforma a escassez em laboratório de criação. Pesquisadores e professores estão mostrando que, mesmo sem internet estável, é possível usar a IA para apoiar alunos e professores, e reduzir desigualdades. É o caso da IA desplugada, nascida em universidades públicas e já presente em muitas escolas, provando que o futuro da educação pode nascer da escassez transformada em pedagogia.

 

Fonte:  Zero Hora/Rafael Parente em 02/10/2025