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Ricardo de Moura Faria
Ricardo de Moura Faria

ENTREVISTA:    Ricardo de Moura Faria                                           

 

Sua Biografia:

Mineiro, da cidade de Dores do Indaiá, reside em Belo Horizonte. Na capital, fez seus estudos superiores na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), graduando-se em História, e na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) fez sua pós-graduação em História Moderna e Contemporânea.

Professor de História de vários colégios de Belo Horizonte, foi sócio-diretor do União Pré-Vestibular, professor titular de História Moderna e Contemporânea no UNI-BH e Consultor concursado da Assembleia Legislativa de Minas Gerais para a área de Educação e Cultura.

Isoladamente ou com colegas produziu cerca de 70 livros didáticos e paradidáticos de História.

Autor de “O amor nos tempos do AI-5”, “Amor, opressão e liberdade”, “Amor e liberdade... ainda que tardia”, “Como contar a História do Brasil para meus netos”, “Diário de um sargento da FEB” e “Diário secreto de Bia”. Foi convidado a participar de uma obra gigante, a “História Geral de Minas”, redigindo o capítulo referente à história de Minas no período republicano.

Fotógrafo profissional durante algumas décadas, hoje tem na fotografia um hobby.

Orgulha-se de ser primo do grande poeta modernista mineiro e conterrâneo, Emílio Moura.

 

Você é autor e coautor de mais de 70 livros didáticos de História. Por que não continuou?

Alguns motivos explicam essa “parada”. Primeiro, o cansaço de ter de produzir coleções com prazo restrito e com número de páginas que não podiam ser ultrapassadas; segundo, começaram a ficar exaustivas em excesso as diretrizes do MEC, exigindo temas, atividades digitais etc. Terceiro, uma certa decepção com a última editora em que publiquei uma coleção para ensino médio e que nos mostrou uma face dupla: enquanto o editorial fazia um trabalho magnífico, o comercial boicotava a divulgação. Então, já aposentado, pensei que seria melhor parar e pensar em novos projetos, como é o caso das obras que publiquei e que foram elencadas acima.

 

Como surgiu o romancista Ricardo Faria?

Posso dizer que saí da História, mas a História não saiu de mim. O primeiro romance mostra isso claramente: é uma história amorosa que se passa num contexto histórico preciso. A ideia me surgiu quando ainda lecionava para colégios e sentia a dificuldade da moçada assimilar os horrores do período ditatorial. Como eu já tinha lido muitos romances históricos, pensei que poderia fazer o mesmo. Ousadia, mas se não somos ousados, quem o será por nós?

 

Fale sobre o seu primeiro livro.

Sim, o primeiro livro é este que acabei de “anunciar” na questão anterior. “O AMOR NOS TEMPOS DO AI-5”. Fruto de uma maturação longa. Pensado em 1995, só veio a ser publicado em 2015. Duas ideias básicas já estavam traçadas: o primeiro e o último capítulos. Isso eu já tinha definido quando pensei no possível livro. Mas o recheio, só tive condições de escrever a partir de 2010.

Uma sinopse desta obra, cujo contexto histórico são os anos de 1971 e 1972:

A década de 1970 foi assinalada por turbulências internacionais e nacionais. Lá fora, os ecos da Guerra do Vietnã e o recrudescimento da Guerra Fria. Aqui, a repressão política, cujo paradigma maior foi o Ato Institucional nº 5, o AI-5. Nesse cenário, inscreve-se a ficção. Uma trágica e emocionante história amorosa, possível, talvez, por demonstrar que a liberdade na cama era o corolário da falta de liberdade política.

Os destinos de um professor universitário e de sua esposa, de uma aluna e de um colega de trabalho se unem, se cruzam, em momentos altamente eróticos, baseados, porém, no diálogo, no respeito, na liberdade. Tudo acontece ao som da música de compositores clássicos e daqueles da MPB que eram cantados e tocados pela juventude.

 

É uma trilogia? O que vem depois?

Em princípio, eu não havia pensado em uma sequência, mas ao terminar aquele volume, senti que lacunas surgiam, particularmente no que tange à vida das personagens, então, em poucos meses escrevi o segundo “AMOR, OPRESSÃO E LIBERDADE”, que também é uma história bem romanceada do período 1972 a 1982.

 

 

A sinopse deste livro é a seguinte:

Drama, humor, pitadas de erotismo, música, amor, sempre amor. Em um país e em um mundo onde a luta entre a opressão e a liberdade estavam presentes, desenha-se a trama que envolve uma família que luta para sobreviver à tragédia que lhes bateu à porta no volume inicial.

O contexto histórico está presente tal como no volume anterior. Os leitores poderão acompanhar os eventos marcantes dos dois últimos governos militares, a crise econômica, o processo de abertura política e o fim do tão temido – e finalmente extinto em 1979 – AI-5.

Aqui teremos novas histórias de amor envolvendo a família e, principalmente, as duas crianças que se tornam adolescentes e chegam à maturidade.

Tudo resolvido? Nada... começaram a me cobrar mais um volume e ele veio à luz em 2019. “AMOR E LIBERDADE... AINDA QUE TARDIA”

E aí defini que estaria mesmo completo, tanto é que denominei a trilogia. “Brasil fin-de-siècle”, ou seja, a história do Brasil nas três últimas décadas do século XX, na perspectiva de personagens ficcionais.

 

 

Sinopse:

Este volume completa a trilogia BRASIL FIN-DE-SIÈCLE. As personagens infantis do primeiro livro chegaram à maturidade, definiram suas opções profissionais e amorosas. O período de 1982 a 2000 é o contexto de romances das personagens cujas histórias foram retratadas nos dois volumes anteriores. Crescendo e se desenvolvendo, assumindo posturas relacionadas à afirmação feminina, à conscientização política, à postura de defesa do meio ambiente, Nelson e Bia proporcionam belos e emocionantes momentos, ao mesmo tempo em que amadurecem seus sentimentos, sem abdicar da liberdade que o país voltava a viver.

Mas a vida da gente é engraçada. Eu já estava produzindo um outro livro, infantojuvenil, quando um colega meu, também escritor, publicou uma resenha e deu uma dica, de que uma certa personagem da trilogia mereceria um “plus”.

Essa personagem era a menina Ana Beatriz, que todos chamavam de Bia. Travessa, no primeiro livro, ela aprontou bastante na adolescência e se tornou uma mulher formidável na vida adulta. E, de pronto, me veio a ideia de produzir um diário que ela teria escrito, e onde registrou, além de sua visão de mundo, uma série de acontecimentos que nem a família conhecia.

Foi assim que nasceu o livro recentemente publicado pela Leia Livros: “O DIÁRIO SECRETO DE BIA”

 

 

O que é um diário? E por que ele seria secreto? E qual a razão de, agora, ser publicado?

São muitas as questões que podem ser formuladas.

No mínimo, é curioso que uma pessoa escreva um diário durante 23 anos, sem preocupar-se em divulgá-lo e, de uma forma até inusitada, resolva dar publicidade a ele.

Pois, esta pessoa é Ana Beatriz, conhecida pelo carinhoso diminutivo de BIA.

Suas observações da vida, das pessoas com as quais se envolve e de seus familiares, soam ingênuas, a princípio, mas, à medida que ela amadurece, se tornam mais consistentes.

Ela ama, chora, fica estressada, trabalha... Ela se envolve com a política e, principalmente, com a defesa do meio ambiente; ela rejeita o machismo e o racismo, enfim, se torna uma cidadã de primeira grandeza.

E é por tudo isso que a leitura de seu diário vai encantar as leitoras e leitores.

 

Existe uma maneira diferente de narrar a História do Brasil? É a sua versão contada para seus netos?

Bem, inicialmente devo dizer que os netos são os meus netos de verdade. Pensei em tratar determinados temas da História do Brasil de uma forma dialógica. Um pouco daquilo que Monteiro Lobato fez e também um historiador francês Jacques Le Goff, que escreveu sobre a Idade Média explicada às crianças.

 

 

Então, o avô, que sou eu, em conversa com os três netos, vai dialogando e mostrando a eles a possibilidade de termos diferentes versões sobre os eventos selecionados: a chegada dos portugueses, a época do açúcar, os bandeirantes e a época do ouro; as inconfidências; o processo de independência; o fim da escravidão e a proclamação da República. Também esclarece a eles a importância dos documentos e incentiva-os a olharem com cuidado as imagens.

 

E o Diário de um Sargento da FEB? O que nos conta sobre a narrativa, que está além da sinopse na contracapa?

A história desta publicação é interessante. Uma vizinha, sabendo que eu sou historiador, me levou dois cadernos, já bem usados, e me explicou que eram as anotações do pai dela, que havia ido à guerra.

Examinei atentamente e cheguei à conclusão de que merecia ser publicado, principalmente porque o pai dela, Sargento Humberto Buchemi, era do Terceiro Escalão da FEB. Ou seja, os pracinhas que estiveram no front, lutando contra os alemães em território italiano, eram os do Primeiro e Segundo Escalões. O Terceiro era composto pelos oficiais e praças que ficavam na retaguarda, providenciando tudo o que os soldados precisavam. Armavam os acampamentos, faziam o pagamento dos soldos, despachavam correspondência, entre outros afazeres.

 

 

Então, a visão do Sargento Buchemi era essa, e eu já tinha lido muitos diários e depoimentos de quem esteve no front. Portanto, o diário do sargento Buchemi revestia-se de particularidades que poucas pessoas conheciam.

 

E essa obra coletiva, sobre a História de Minas? O que tem a dizer sobre ela?

Foi mesmo uma grande surpresa, receber um telefonema do José Maria Rabêlo, que não conhecia pessoalmente, mas admirava desde muito tempo pela sua bela carreira de jornalista. Convidou-me para uma reunião em seu apartamento, quando tive a oportunidade de me encontrar com o João Antônio de Paula, que tinha sido meu professor na pós-graduação feita na PUC-Minas.

Colocaram-me a par do projeto e me destinaram o capítulo final, relativo ao século XX e este início do século XXI.

 

 

Eu, particularmente, não sou especialista em História de Minas Gerais, apesar de já ter escrito uma “História de Minas Gerais” em parceria com a professora Helena Guimarães Campos, publicado em 2006 pela Editora Lê, além de alguns livros didáticos com o mesmo objeto. Também organizei um “Dicionário Ilustrado da Inconfidência Mineira” que foi distribuído gratuitamente às escolas estaduais.

Tive de fazer uma grande pesquisa, para me atualizar com a bibliografia recente e consegui produzir o capítulo, que foi aprovado pelo organizador do livro.

 

Atuou como fotógrafo profissional, e depois da aposentadoria diverte-se fotografando como hobby. Fale a respeito. Os poetas costumam dizer que as imagens também são poesias.

Vou confessar um pecado: sempre invejei os poetas. Em minha defesa, digo que é uma santa inveja, pura... porque nunca consegui fazer poesia nenhuma. E quando me tornei fotógrafo, além dos trabalhos encomendados [festas de 15 anos, casamentos etc] eu sempre procurei, com minhas fotos, fazer a poesia que não conseguia escrever.

Não fiz todas as poesias que poderia ter feito, devido ao fato de que o fotógrafo também era professor e escritor de livros didáticos e o tempo disponível para as fotos era sempre o mais curto.

Fiz algumas exposições, individuais, em dupla com minha esposa, também fotógrafa, e coletivas.

Uma exposição do casal, na galeria do Banco Itaú, em BH, intitulada “Sonho e fantasia”; uma coletiva, no mesmo local, com alunos do professor Averaldo Sá; uma individual na galeria de arte da Assembléia Legislativa, e novamente uma com minha esposa em Ribeirão Preto, com fotos minhas de viagens e dela com a vida noturna em Arraial da Ajuda.

Acha que tem poesia nesta aqui?

Nota: Com certeza é pura poesia... A beleza do cenário, as lindas jovens, violão/música, flores, as cores suaves dos vestidos... Nell Morato

 

E por falar em poeta, Emilio Moura, poeta modernista mineiro e seu conterrâneo, também seu primo. Fale-nos sobre ele e como é ter um poeta na família.

Eu não o conheci. Apesar de ele ter falecido em 1971, a maior parte de sua obra foi escrita nas décadas de 1920 a 1940, quando eu ainda não era nascido. Ele não morava mais em Dores do Indaiá quando nasci. E como santo de casa não faz milagre, nos dez anos em que vivi lá, sequer ouvi mencionarem o nome dele. Só vim a conhecer o Emílio escritor, poeta, bem mais tarde.

Claro que é um orgulho para a família ter alguém tão famoso! E hoje, a cidade já o reverencia também.

Foi companheiro de Carlos Drummond, de Pedro Nava, Cyro dos Anjos, Abgar Renault e outros que compunham o grupo mineiro responsável pelo modernismo na literatura brasileira.

Publicou oito livros, sendo que o último, “ITINERÁRIO POÉTICO” recebeu o prêmio de Poesia do Instituto Nacional do Livro.

Mereceu um verso lindo do Drummond quando faleceu:

"Corredor ou caverna ou túnel ou presídio, não importa. Uma luz violeta vai seguir-me: a saudade de Emílio Moura".

 

O Diário Secreto de Bia tem relação com a trilogia "Brasil fin-de-siècle”, por quê?

Sim. Como eu já disse anteriormente, a personagem Bia, que escreve esse diário, está presente nos três volumes. Mas no “AMOR NOS TEMPOS DO AI-5” ela tem 8-9 anos, então essa fase não é contemplada no diário, eis que ela ganhou de presente quando fez 15 anos. Daí até os 37 ela está falando do período dos dois volumes finais da trilogia.

 

O diário é secreto, então, por que está sendo publicado?

Conforme é explicado na introdução da obra, ela não pensava em publicar. Escrevia apenas para si mesma e como eu disse, ali estavam “coisas proibidas...” Mas um episódio vivenciado por ela acabou fazendo com que resolvesse pela publicação. Como não sou de contar spoilers, só posso dizer que valeu a pena!

 

Qual a sua opinião sobre o ensino, da época em que foi professor e de agora, evoluímos ou não?

Essa é uma questão complexa. Acaba caindo naquilo que se diz de vez em quando: “no meu tempo era melhor...”

Na verdade, a educação no Brasil tem sido discurso de período eleitoral e de poucas realizações. Eu penso que a grande questão está relacionada com uma mudança necessária, fundamental, mas as escolas não estavam preparadas para tal. A escola pública – e eu falo daqui de Minas que é a minha realidade – era da melhor qualidade. Em alguns colégios, os professores eram das universidades, gente altamente qualificada. Quando começaram a ocorrer mudanças, tudo ficou embaralhado. Professores que davam aula na faculdade e no colégio tiveram de optar. O regime de trabalho não permitiria mais a acumulação de cargos. E isso aconteceu quando a escola pública começou a se tornar realmente pública, no sentido que ela se abriu para as classes populares. Isso era necessário e fundamental, como eu disse acima, mas as escolas não souberam como lidar com crianças que iam à escola para se alimentar e para as quais o estudo era algo enfadonho. Que foi ficando cada vez mais enfadonho nos tempos mais recentes, quando a tecnologia, a internet, as redes sociais inundaram o país e muitas vezes os alunos entendiam melhor como usar do que os próprios professores.

Diversas vozes se fizeram ouvir, tanto no exterior quanto no Brasil, projetos foram implantados, muitas vezes por pessoas que nunca estiveram numa sala de aula de escolas de periferia. Ou seja, projetos fadados ao fracasso.

Não quero nem falar do que está acontecendo hoje, com esses projetos malucos advindos de mentes totalitárias.

No campo da universidade, eu diria que causava espanto verificar como, a cada ano, os alunos que entravam tinham mais defasagem do que os anteriores. Alertei sobre isso num congresso em 1995. Pesquisas mostravam e a imprensa reproduzia, dados que espantavam. Os alunos de melhor situação econômica não buscavam os cursos de licenciatura. Em 1986, ano em que comecei a lecionar na faculdade, eu diria que 50% dos alunos seriam bons professores, críticos, criadores. Em 2004, quando me aposentei, eu diria que 5% dos alunos seriam bons professores. Faculdades privadas despejam no mercado de trabalho na base do “pagou-passou”. Lembro de um diretor que dizia que não poderíamos reprovar mais do que 20%! Então, quem é que está lecionando hoje? Não estou generalizando, sei de muitos profissionais extremamente competentes que estão atuando, mas a cada dia que passa eles se tornam minoritários. O resultado aparece nos exames que são feitos, em que se verifica o absurdo porcentual de alunos que são chamados de analfabetos funcionais.

 

A leitura nas escolas é um assunto polêmico. Envolve crianças, jovens e professores, quando não têm os pais envolvidos também. Qual sua opinião, a leitura dos clássicos ou literatura contemporânea?

Voltando à questão anterior. Em minha cidade, pequena, a Escola Normal, que formava professoras, tinha as Classes Anexas. Lá eu fiz meu curso primário. E lembro direitinho que a escola tinha uma biblioteca fantástica e uma vez por semana a turma tinha de ir lá, cada um escolhia o livro que queria ler. Não era imposto. Era de livre escolha, e a gente tinha o maior prazer de escolher.

Quando eu escrevia livros didáticos, eu e meus colegas coautores íamos a muitas escolas e eu fazia questão de ver as bibliotecas. Lástima! A maioria dos livros eram livros didáticos que as editoras entregavam nas escolas para forçar a adoção.  Muito pouca coisa de literatura.

Atualmente se produz muitos livros para o público infantil e juvenil. Há um esforço para aparelhar melhor as bibliotecas. Eu penso que é ali que se deve iniciar, haja vista que, nas classes populares, livros não são artigos de primeira necessidade. Pais, muitas vezes analfabetos ou com pouca alfabetização, não têm como incentivar os filhos para ler. A escola é que tem essa condição. Para isso precisa estar repleta de livros.

O que eles devem ler? Tudo... clássicos, inclusive. Existem adaptações de autores clássicos, é válido sim. E claro, também a literatura contemporânea.

 

Como analisa a literatura de hoje, como o conceituado Prêmio Jabuti abrindo uma janela para premiar entretenimento, como ocorreu em 2020?

Confesso que não acompanhei o Jabuti desse ano, então não posso opinar sobre essa questão.

 Nota: Quem desejar poderá conferir um artigo aqui mesmo, no Almanaque Literário:

              https://almanaqueliterario.com/premio-jabuti-e-romance-de-entretenimento

 

O que os pais precisam fazer, como educadores, para que seus filhos se tornem bons leitores? Ou acha que a maioria dos pais não está preocupado com isso?

É como falei anteriormente. Quantos pais podem? Quantos estão interessados? Os pais pobres podem até incentivar, mas provavelmente eles são pessoas de poucas leituras. Os pais de classe média têm como comprar livros e incentivar. Mas será que nossa classe média tem realmente tal interesse? Assim como a classe A... nossa elite é dramaticamente pobre de espírito.  E o que a gente tem percebido é que os pais, em boa maioria, não estão educando seus filhos e querem que a escola faça isso. O exemplo sempre foi o melhor educador. Se os pais não largam os celulares, não se incomodam que os filhos fiquem o dia inteiro jogando ou entrando nas redes sociais... fica difícil imaginar o que será um país sem leitores...

 

Temos uma grande defasagem de leitores em nosso país. O que acha que devemos fazer para estimular a leitura nas crianças e jovens?

De uma certa forma, já falei sobre isso nas questões anteriores.  As famílias precisariam incentivar, as escolas têm de incentivar e para isso precisam ter boas bibliotecas, o preço dos livros precisa ser mais baixo [há países em que os livros são de graça...], estimular a leitura com concursos, adaptações para teatro... muita coisa pode e deveria ser feita. O mais importante é acreditar na importância da leitura.

 

O que você acha de ser escritor em um país de poucos leitores, onde a literatura nacional não é valorizada e o custo de edição e impressão é alto?

Fiz amizade com vários escritores nas bienais e feiras de que participei antes dessa pandemia. Muitos reclamavam de editoras, de custos altos, de editoras que não divulgavam apesar de cobrarem caro pela impressão dos livros. Ora, escrever e não ter como divulgar... é muito complicado. A divulgação é a parte mais importante e mais cara! Eu, felizmente, não dependo financeiramente das vendas de meus livros, mas faço tudo para que um número cada vez maior de leitores tenha acesso ao que escrevi, às ideias que defendo etc e tal.

O descaso de editoras pode ser não divulgar ou dar apoio totalmente inadequado. Exemplo meu: na bienal de São Paulo, eu tinha uma hora, no último dia da bienal, para autografar meu livro. Quando cheguei ao stand, vi que havia um outro autor, escalado para o mesmo horário que eu. Sentamos, lado a lado e só vimos que atrás de nós havia um telão mostrando o meu livro e o dele. E à nossa frente, todos os super-heróis possíveis e imagináveis, dançando e atraindo um bando de crianças e adolescentes. Ninguém via os pobres coitados dos autores atrás dos super-heróis... Isso é divulgar? Isso é apoiar autores que pagaram para que suas obras fossem publicadas? E por que vendiam um livro já pago pelo autor, e cujo custo não seria superior a 8,50 reais, por 44 reais? Como diria o Brecht... são tantas as questões!!!

 

Qual seu autor preferido e o livro, que na sua concepção é o melhor de todos os tempos e por quê?

Ah... mas que pergunta mais difícil é essa? Olha, eu leio desde os 13 anos literatura clássica, seja brasileira, seja internacional. Ao fazer meu curso de História, eu tinha uma biblioteca, minha, de cerca de 2.000 livros. Posteriormente, por falta de espaço, me desfiz da maioria. Quando vim a morar num apartamento maior, fui refazendo e cheguei a ter 3.000. Tive de alugar uma sala para colocar esses e mais alguns que eu não parava de comprar. Hoje, tenho cerca de 500 livros em casa. Vendi e doei os outros.

Então, como, no meio desses 5.000 livros que tive, fora os que li na biblioteca da faculdade, escolher UM? Lamento, essa pergunta não tem resposta... rsss

 

Fale de seus projetos literários.

Bem, no momento atual, meu empenho é divulgar o “DIÁRIO SECRETO DE BIA”, recentemente publicado com o apoio da Leia Livros. Já tenho um outro livro, pronto, revisado, com capa pensada, que espero publicar em maio ou junho deste ano. [Dando um tempo para quem comprou o Diário da Bia respirar e ter reservas para comprar mais um... rsss] Neste livro eu tive a colaboração de muitas pessoas, pois são cem contos. Histórias contadas por um grupo de sete mulheres e três homens que se reúnem num sítio para fugir à pandemia. Já ouviram ou leram algo parecido? Sim, a ideia é escrever o “DECAMERON DO SÉCULO XXI”. Está prontinho. Só falta eu pedir o orçamento à Leia Livros...

E praticamente pronto também, um de literatura infantil: “A VIAGEM DO MENINO À TERRA DOS DINOSSAUROS”. Ficou bem legal, inclusive com ilustrações feitas pelo menino do título.

 

Por que você recomenda a leitura de seus livros? 

Olha, eu acredito que quem gosta de romances, quem gosta de romances históricos, quem gosta de um pouco de humor, quem aprecia ler sobre pessoas que poderiam ser seus vizinhos, ou até mesmo poderiam ser você, quem ama histórias amorosas... essas pessoas todas gostariam de ler meus romances.

Os demais livros já publicados são livros que podem ser utilizados pelos professores de História em suas aulas. Eu recomendaria que pelo menos tivessem a curiosidade de ler para repassar aos alunos.

 

Deixe uma mensagem para seus leitores.

A mensagem que deixo para todo mundo, não apenas para meus leitores é só uma: Leiam! Ler faz bem, alimenta o espírito, abre a mente, nunca deixem de ler!

 

Acompanhem o autor nas redes sociais:

Facebook: www.facebook.com/paginadoricardofaria

Instagram: @ricardodemourafaria

 

Todos os livros citados na entrevista, podem ser solicitados diretamente ao autor no e-mail abaixo:

historiaricardo@gmail.com