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A Conquista da Felicidade, de Bertrand Russel
A Conquista da Felicidade, de Bertrand Russel

SER FELIZ É TUDO QUE SE QUER / BERTRAND RUSSEL

 

FELICIDADE SE CONQUISTA

 

Gustav Aschembach, personagem de Thomas Mann no clássico MORTE EM VENEZA, “não amava o prazer”. Era como muitos de nós ainda hoje: “Quando e onde fosse preciso festejar, cuidar do repouso, passar um dia em folguedos, desejava logo – e assim fora principalmente quando mais moço – com inquietação e contrariedade voltar para a sua árdua labuta, para o serviço sagrado e sóbrio da vida cotidiana. Só este lugar o enfeitiçava, afrouxava seu querer, fazia-o feliz”. Em outras palavras, ele só era realmente feliz no seu lugar trabalhando.

 

Bertrand Russel (1872-1970), natural do País de Gales, ficou órfão muito cedo. Foi criado por avós rigorosos. Adulto, chegou a pensar em se matar. A vida não lhe sorria. Alguma coisa, contudo, deu-lhe a chance de continuar. Tornou-se matemático e escritor. Ganhou o Nobel de literatura em 1950. Era bom de frases, de fórmulas, de sacadas, de paradoxos, de ironias. Um exemplo? Aqui vai: “Não possuir algumas das coisas que desejamos é parte indispensável da felicidade”. Achou pouco? Segura esta então: “O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas”. Conhece alguém assim? Não precisa dizer.

 

Pensador acadêmico, Russell surpreendeu ao publicar A CONQUISTA DA FELICIDADE (1930). Dividiu a obra em duas partes: AS CAUSAS DA INFELICIDADE e AS CAUSAS DA FELICIDADE. Simples. De uma elegância matemática. Quer ter uma chance de ser feliz? A primeira coisa a fazer é não passar a vida ensimesmado, voltado para dentro, obcecado pelo próprio ego. Que história é essa? Banal. Isolamento enlouquece. Torna infeliz. Para ser feliz é preciso sair, expandir-se, ocupar-se, arranjar passatempos, entreter-se, distrair-se. Quem pensa demais sobre si não casa, fica infeliz e fecha a porta à luz necessária para desabrochar. Ele não negava à autorreflexão. Recomendava não exagerar.

 

Todos podem ser felizes ou só cultos? O que é a felicidade? Sentir prazer? O que é prazer? Para Russell, vencer obstáculos. Conhecimento não garante felicidade. Criatividade tolhida é um bom caminho para a infelicidade. Compartilhamento, colaboração e gregarismo ajudam a ser feliz. Introspecção excessiva dificulta. Russel pede o pé na lama: por que as pessoas perdem o gosto pela vida? O que leva as pessoas à melancolia, à apatia, a não ver graça em coisa alguma? Enormes questões para uma pequena filosofia. Se o pensador não pode resolver o problema da quadratura do círculo, pode, ao menos, cercar uma quase definição de felicidade: gosto pela vida.

 

Dançar com a vida

 

Há lógica no que Bertrand Russell diz. Ele era especialista no assunto. Há também senso de observação. Tem mais chances de ser infeliz quem aposta todas as fichas numa coisa só. Se perder, perde tudo. Melhor abrir o leque, diversificar os interesses, não colocar todos os ovos no mesmo balaio, dançar com a vida, ousar um pouco, experimentar isto e aquilo. Advertência: sem amor não há felicidade possível. Para ser amado, porém, é preciso amar. Amor ou afeto. Há quem guarde a palavra amor para as relações que envolvem sexo. Afeto serviria para o amor fraterno. Ambos são decisivos.

 

Para ser feliz é necessário agitar-se o tempo inteiro? Não. Russell defende a tranquilidade: “Uma vida feliz deve ser em grande parte uma vida tranquila, pois só numa atmosfera calma pode existir o verdadeiro prazer”. Onde está o pulo do gato? Em equilibrar interior e exterior, intensidade e moderação, apetite e satisfação. Nada ter é terrível. Ter tudo nada garante: “O animal humano, como outros animais, está adaptado para certa luta pela vida e quando, graças à uma riqueza, o homo sapiens pode satisfazer todos os desejos sem esforço, a simples ausência do esforço na sua vida afasta dele um elemento essencial da felicidade. O homem que adquire facilmente as coisas pelas quais sente um desejo moderado conclui que a realização do desejo não dá felicidade. Se tem disposição para a filosofia, conclui que a vida humana é essencialmente desprezível, pois o homem que te tudo o que precisa ainda assim é infeliz”. Barbada, não?

 

Nunca é. A sociedade pode ser a responsável pela nossa infelicidade. Fatores aleatórios também. Perturbações nervosas não costumam respeitar classes sociais. Felicidade se conquista. É algo que se cultiva, constrói, semeia, depende de método. Quem se recolhe demais, encolhe. Quem abre a janela tem alguma chance de respirar melhor. Russell não amarelou. Foi direto ao ponto: “O segredo da felicidade é o seguinte: deixar que os nossos interesses sejam tão amplos quanto possível, e deixar que as nossas reações em relação às coisas e às pessoas sejam tão amistosas quanto possam ser”, Feito?

 

Certo. Bom conselho. Mas a infelicidade não está sempre à espreita? Sim. Não se duvide disso. Bertrand Russell dá uma pista: “A raiz do mal reside no fato de se insistir demasiadamente que no êxito da competição está a principal fonte da infelicidade. Não nego que o sentimento de triunfo torna a vida mais agradável. Um pintor, por exemplo, que viveu obscuramente na juventude, decerto se sentirá feliz se o seu talento acabar por ser reconhecido. Não nego também que o dinheiro, até certo limite, é capaz de aumentar a felicidade. Para lá desse limite, julgo que não. O que eu afirmo é o que o êxito só pode ser um dos vários elementos da felicidade e que é demasiado o preço pelo qual se obtém se a ele se sacrificam todos os outros”.

 

Ser feliz é tudo o que quer? Não basta querer. Tem de fazer.

 

Gustav Ashenbach foi feliz enquanto trabalhou no lugar que amava.

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Juremir Machado da Silva em 05/01/2019