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Quadrinistas: Daniel Clowes e Adrian Tomine
Quadrinistas: Daniel Clowes e Adrian Tomine

OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES

 

Saem no Brasil livros de dois aclamados autores americanos: DAVID BORING, de Daniel Clowes, e INTRUSOS, de Adrian Tomine

 

Livro: DAVID BORING de Daniel Clowes – Tradução de Jim Anotsu, Editora Nemo, 144 páginas

 

Livro: INTRUSOS de Adrian Tomine – Tradução de Érico Assis, Editora Nemo, 124 páginas

 

Em 1999, a coletânea COMIC BOOK – O NOVO QUADRINHO NORTE_AMERICANO apresentou no Brasil dois autores que eram então talentos emergentes da cena alternativa nos Estados Unidos. Embora não fossem contemporâneos, Daniel Clowes, nascido em 1961, e Adrian Tomine, de 1974; compartilhavam características, como o emprego da primeira pessoa e do formato de diário nas histórias (apesar de não serem autobiográficas), o olhar desencantado para a vida em família e em sociedade, o sendo de humor temperado por acidez e melancolia, o jeito estranho ou reprimido de os personagens lidarem com as pulsões sexuais. A proximidade era inclusive física. A pequena biografia de Tomine informava que ele, na época, morava em Berkeley (Califórnia), na mesma rua de Clowes.

 

De lá para cá, um deles compareceu com assiduidade ao mercado brasileiro, enquanto o outro permanecia distante até agora. Simultaneamente, a editora Nemo lança DAVID BORING – quinto título solo de Clowes no país, depois de COMO UMA LUVA DE VELUDO MOLDADA EM FERRO, GHOST WORLD, WILSON e PACIÊNCIA – e INTRUSOS, primeiro livro individual de Omine por aqui.

 

DAVID BORING é um trabalho mais antigo de Clowes, lançado em 2000, quando o quadrinista ainda era bastante comparado ao cineasta David Lynch – por causa da prevalência do surrealismo, do pendor para o enigma, do carinho para com o absurdo e o bizarro, da dualidade de seus personagens, do caráter transformador do sexo, do questionamento a respeito da realidade. Todos esses elementos estão presentes nessa HQ, cujo protagonista homônimo, filho de um obscuro cartunista, é um vigia de 19 anos obcecado por uma parte específica do corpo feminino, idolatrada em um livro secreto de recortes. Sua vida entediante (boring, em inglês) muda radicalmente quando David recebe a visita de um ex-colega de escola – afinal, “não dá para confiar de verdade em um cara que se lembra de cada detalhe vergonhoso de sua adolescência” - e conhece Wanda, a garota dos seus sonhos (e de seu prazer egoísta). É o ponto de partida para um vórtice de emoções, taras, crimes e humilhações, pontuado pelas reflexões certeiras de Clowes acerca de quem somos no íntimo: “Não consigo decidir se preciso de ajuda ou se sou apenas tão fodido quanto o resto das pessoas. Tem alguma coisa de errado em ser um pouco obsessivo?”

 

SEIS CONTOS CONCISOS SOBRE MASCULINIDADE TÓXICA

 

A comparação de DAVID BORING com INTRUSOS expõe pontos de desconexão entre Clowes e Tomine. Enquanto o primeiro permite-se extrapolar para o fantástico e até delirar, o segundo tem uma pegada mais realista ao investir em situações do cotidiano e nas relações familiares. Enquanto Clowes produz narrativas longas, Tomine especializou-se no conto e na contenção – já foi considerado o Raymond carver (1938-1988) dos quadrinhos, em alusão ao minimalismo do autor de SHORT CUTS, e cita como uma de suas referências John Cheever (1912-1982), o “Tchekhov dos subúrbios americanos”.

 

- Tomine une essa tradição de contistas à influência da ilustração editorial, mercado em que ele atua, fazendo capas para a revista New Yorker e para discos de bamdas como Weezer e Yo La Tengo. Assim, aprimorou a arte e contar histórias só com uma imagem e sem palavras – diz o tradutor do livro, o pelotense Érico Assis – É extremamente enxuto, tanto no texto quanto no desenho. Sabe escolher muito bem as cenas para revelar o personagem e parece levar três dias para traçar uma linha.

 

Outra virtude que sobressai na leitura de INTRUSOS é a versatilidade artística de Tomine. Cada um dos seis contos tem um estilo próprio. BREVE HISTÓRIA DA ARTE CONHECIDA COMO HORTESCULTURA, por exemplo, é uma comédia agridoce e cartunesca em formato que emula uma série de tiras de jornal. Em TRADUÇÃO DE JAPONÊS, nunca vemos os personagens em cena: há apenas a alternância de panorâmicas e zooms em um avião, no aeroporto e nas ruas de uma cidade californiana – uma contemplação que, por sua vez, contrasta com a divisão em até 20 quadros das páginas de TRINFO E TRAGÉDIA, recurso que não apenas dá agilidade à trama, como simboliza o sufocamento emocional da protagonista.

 

Há uma temática, contudo, que perpassa o livro inteiro: como bem apontou o crítico americano Douglas Wolk, todos os contos tratam de homens que se intrometem e estorvam a vida de mulheres. São intrusos como o agora solitário militar que invade a casa onde morava; o pai sarcástico que menospreza e ridiculariza a filha adolescente, insegura e gaga, que decide fazer carreira como comediante stand-up; o traficante de drogas alcoolista e fã de beisebol que se aproxima, como um insuspeito predador, de uma garota vítima de um relacionamento abusivo. Homens que anulam, exploram, roubam – em AMBER SWEET, uma jovem teve a juventude tolhida e sofre assédio por ser uma sósia de uma atriz pornô; em HORTESCULTURA, a esposa de um jardineiro entrega toda a sua empatia em troca do devaneio artístico do marido, mimado e grosseiro; em TRADUÇÃO DO JAPONÊS, uma mãe escreve uma carta ao filho tentando entender a separação: “Queria saber com que idade você está agora que lê esta carta. Há quanto tempo eu me fui? Você acredita que seus pais chegaram tão perto de não serem mais um casal?”

 

Fonte: Zero Hora/Segundo Caderno/Ticiano Osório (ticiano.osorio@zerohora.com.br) em 28/03/2019