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Rodrigo Selback e a Diversidade no Mundo das HQ
Rodrigo Selback e a Diversidade no Mundo das HQ

DIVERSIDADE NO MUNDO DOS QUADRINHOS

 

ENTREVISTA COM RODRIGO SELBACK

 

É bastante provável que neste final de semana (em 12 de maio) VINGADORES ULTIMATO se torne a maior bilheteria de todos os tempos nos cinemas. Trata-se de mais um sinal de o quanto o universo dos super-heróis tomou conta da cultura pop nos dias atuais. De passagem por Porto Alegre, onde palestrou na POA Geek Week, o especialista em quadrinhos Rodrigo Selback conversou com o Correio do Povo sobre a diversidade nos universos da ficção.

 

 

A diversidade que existe hoje nos quadrinhos faz jus à realidade?

Cada vez mais. Existe um movimento hoje muito grande, mesmo das editoras grandes, como DC e Marvel, uma preocupação maior, não só com que os personagens alcancem uma gama maior de pessoas, mas também em relação às pessoas que escrevem esses personagens, redatores, editores. Fazer com que esses caras também sejam pessoas envolvidas com aquela realidade.

 

 

Sem que necessariamente mulher só possa escrever sobre mulher, negros sobre negros e por aí adiante...

Isso, não necessariamente. Para que todo mundo tenha voz e possa dizer: “Isso sim, isso não”. Uma das maiores redatoras que a gente tem hoje nos quadrinhos é a Gail Simone e ela escreve muito sobre personagens homens. Quem criou esse Homem-Aranha com o Miles Morales, que é um menino negro e latino, é um homem branco (o roteirista Brian Michael Bendis), que não viveu no gueto, mas que consegue fazer isso de forma muito legal.

 

 

Para que se chegasse à representatividade que se vê hoje, demorou muito tempo?

Demorou muito. Se pegarmos os primórdios dos quadrinhos, ali nos anos 50, 60, sempre houve mulheres trabalhando, mas não eram creditadas. A indústria dos quadrinhos surgiu em cima da mão de obra de imigrantes que foram para os Estados Unidos. E quanto aos personagens, não vou dizer que hoje é um mundo ideal, porque não se sabe o que seria o mundo ideal nos quadrinhos em termos de representatividade. Mas a gente tem um cenário muito maior e muito melhor do que há cinco anos.

 

 

Essa mudança está acontecendo de forma mais rápida do que se imaginava?

Isso também vem muito de demanda. O novo mercado consumidor queria essa mudança. As pessoas precisavam de personagens com os quais se identificassem mais. Muito do público consumidor de quadrinhos até então era um público mais adulto. Mas, em termos mundiais, entrou uma nova geração muito grande em função de todos os filmes que a gente está vendo e querendo consumir. Essas pessoas não estavam se sentindo representadas. Em função disso, os personagens começaram a mudar.

 

 

Isso se reflete em um Homem-Aranha negro, em um Capitão América negro, em uma heroína muçulmana (Ms. Marvel)...

Assim, sem colocar nenhum tipo de preferência, mas a Marvel adotou mais uma postura de representatividade. A Marvel começou, nos anos 2000, primeiro assumindo uma postura de dessexualizar suas personagens femininas, que tinham tradicionalmente biquíni cavado, seios grandes. Eles começaram a transformar essas personagens. A própria Capitã Marvel, se pegar a do começo dos anos 2000 e pegar a de hoje, agora tem roupa mais de guerra, cabelo curtinho. A anterior era o mesmo personagem de biquíni cavado. Essa mudança era necessária para que se tivesse mais público.

 

 

A própria Marvel sofreu com isso com uma capa da HQ da Mulher-Aranha (publicada em 2014) que rendeu muita polêmica por trazer uma personagem muito sexualizada.

Sim, com a capa do (desenhista Milo) Manara. O que aconteceu: a Marvel tomou a postura de dessexualizar as personagens, fez isso muito bem, mas com essa revista da Mulher-Aranha eles fizeram capas alternativas das suas revistas. E convidaram um desenhista de desenhos eróticos. Ele seguiu o traço dele, fez o que se esperava dele. O erro não foi o desenho, foi ter chamado o cara para aquele momento.

 

 

O quanto a criação do selo “Código dos Quadrinhos” (em inglês “Comics Code4 Authority”), que definia o que podia ser publicado ou não em termos de moral, impediu que essa busca por representatividade fosse alcançada antes?

Quando o selo entrou, na década de 50, não veio direcionado aos quadrinhos de heróis. Era mais a uma literatura de terror nos quadrinhos, que era muito forte na época. No pós-Guerra, o interesse pelos quadrinhos de herói caiu muito. Então, para compensar, o mercado entrou com literatura de terror e horror. Só que quem pagou o pato foram os super-heróis. O Fredric Wertham (criador do selo) crucificou muito os heróis. Para a sua pesquisa, pegava jovens ditos delinquentes e perguntava: “Você lê quadrinhos?” Só que se você dizia que não, ele te tirava da pesquisa. Então, ao final, ele afirmava que 100% dos jovens delinquentes liam quadrinhos. Ele induziu a pesquisa. Wertham foi o maior inimigo dos quadrinhos de todos os tempos. Não de uma editora em si, mas da mídia em si. Ele atrasou muito. Temas que poderiam ser debatidos socialmente na época, não foram. E os heróis acabaram entrando em uma fase ingênua. Todas as aventuras eram ingênuas. As aventuras do Superman e do Batman eram pegar um ladrão na rua, tirar um gatinho da árvore. Era uma fase muito complicada da sociedade e os quadrinhos têm essa função de debater os assuntos do momento, que é bem o que a gente vê hoje em dia.

 

 

A própria tese de que o Batman e o Robin eram, na verdade, um casal homossexual começou aí, não?

Sim. Não só do Batman e do Robin serem um casal, mas também as primeiras alegações da Mulher-Maravilha ser lésbica vieram dessa tese, baseada unicamente na cabeça dele, da ideia do Fredric Wertham. Era algo que ele queria passar.

 

 

O que foi preciso até derrubar isso?

Tem uma história do editor e roteirista Stan Lee que é impactante. Ele recebeu uma carta do Ministério da Saúde dos Estados Unidos pedindo que abordasse o assunto das drogas de forma muito singela nas histórias. Tem outra história de que Stan Lee contava de uma mãe que escreveu para ele, preocupada com o filho. São lendas que se contam sobre essa quebra do Comics Code. Ele escreveu uma história em que o Homem-Aranha fala que prefere arriscar a vida enfrentando mil vilões do que arriscar usando drogas. A história é simples. O que acontece: o Stan Lee leva essa história ao Comics Code para ganhar o OK, só que recebe um não, sob a alegação de que aquilo incita o uso de drogas. Ele achou que o Comics Code ia aprovar. E não. Só que considerou a história tão relevante que acreditou que deveria ser publicada de qualquer forma. E foi, sem o selo (a história foi publicada em “O espetacular Homem-Aranha” #96-98, entre maio e julho de 1971). E esse é o grande marco da quebra do Comics Code. As outras empresas concluíram que, com cautela e sem abordar os assuntos tão violentamente, alguns temas poderiam ser tratados. Hoje, a Comics Code em si não existe mais, mas todo quadrinho que sai nos Estados Unidos vem com indicação etária. Há indicação quando se trata de quadrinhos para adultos. As HQs da Jessica Jones, personagem que está na Netflix, nos Estados Unidos, saem com selo “esta HQ não é para crianças”. Acho importante que existam os selos, se você vai deixar ou não seu filho ler é uma escolha.

 

 

No caso de determinados heróis, a representatividade é mais explícita. O Pantera Negra é um herói negro. A Mulher-Maravilha, a Capitã Marvel, são personagens mulheres. No caso dos gays, a situação por muito tempo foi um tanto quanto diferente. Os X-Men, por exemplo, tinham um subtexto muito claro a respeito, mas nunca explícito. O público em geral percebia isso?

Tem um documentário que se chama ”Superheroes: A never ending battle” (“Super-heróis: uma batalha sem fim”) e nela Stan Lee diz que escreveu exatamente desta forma, para ficar bem subliminar. E ele também conta uma história de que ninguém consegue enganar as crianças. As crianças entenderam antes dos adultos o subtexto da história. Ainda hoje descubro coisas dos X-Men que eu não sabia. Se formos parar para pensar, ali a gente tem uma miríade muito grande de grupos representados. A gente tem o Professor Xavier, que é um deficiente físico, o primeiro super-herói cadeirante, o Homem de Gelo que é um personagem gay, a gente tem a questão do empoderamento feminino muito forte. Se parar para pensar, a personagem mais forte dos X-Men foi a Fênix e a maior líder deles foi a Tempestade. É o único grupo que tem um personagem indígena. Então são várias questões de uma forma muito subliminar nos X-Men.

 

 

Do ponto de vista de representatividade, os X-Men são o maior exemplo?

Para mim, sim. O maior exemplo de todos quando se fala de representatividade. Porque eles conseguem abranger diversos grupos e fazer com que uma quantidade muito grande de pessoas se identifique. É por isso que quando os X-Men surgiram, foi essa febre tão grande. Todo mundo queria ler. Eles são essa tentativa de não se esconder.

 

 

Se por um lado a Marvel mostrou preocupação com esse aspecto, por outro a gente pode lembrar que determinadas histórias do Batman na DC, pelo menos algumas do (escritor e desenhista) Frank Miller, são...

Fascistas. Esse é o termo que você estava procurando, certo?

 

 

Estava tentando fugir, mas em alguns momentos ele pende para um lado mais autoritário, não? Neste sentido, a Marvel não parece mais antenada com o próprio tempo?

Os autores da DC escreveram os maiores clássicos da história dos quadrinhos, quanto a isso não tem muita discussão. A grande maioria dos clássicos é da DC. Os personagens da DC têm muito a questão da perfeição. O Superman passou a vida toda tentando ser perfeito. A Diana (Mulher-Maravilha) veio para ajudar a deixar o mundo mais perfeito. O Batman vem de uma tragédia que ele não quer que aconteça com os outros, eles têm mais essa questão. Não significa que a DC não tenha personagens de representatividade, não é isso. Mas eles vieram muito depois. A Marvel começou com isso, de trazer a realidade para o seu mundo, muito mais cedo. A Marvel sempre quis ser uma história do mundo. Se você vai a Nova Iorque, você sabe em que rua fica o edifício Baxter (do Quarteto Fantástico). Não é Gotham City, que é um lugar onde você nunca vai chegar. Nos mundos da DC, as cidades são fictícias.

 

 

Nos últimos 10 anos, aconteceu um boom de filmes de super-heróis no cinema. O cinema traz mais gente para os quadrinhos, os quadrinhos que levam mais gente para o cinema ou é um movimento recíproco?

As grandes inspirações para o cinema continuam sendo as maiores histórias dos quadrinhos e dos grandes personagens, tanto para a Marvel como para a DC ou qualquer outra editora que faça uma série ou um filme. Hoje nós temos personagens dos quadrinhos mais parecidos com os do cinema para que, quando uma pessoa que for assistir ao filme comprar um quadrinho, não soe tão estranho. A gente vive um processo em que eles se tornam cada vez mais parecidos. Se a gente pegar, por exemplo, o Doutor Estranho, ele sempre teve aquela cara. Mas se olharmos hoje os quadrinhos do Doutor Estranho, ele é muito mais parecido com o (ator Benedict) Cumberbatch. O próprio universo Ultimate da Marvel, foi meio criado pensando em atores. O Nick Fury era um personagem branco. No Ultimate ele era negro e tinha a cara do (ator) Samuel L. Jackson já nos quadrinhos, mesmo antes dos filmes. Ele já foi pensado naquele ator. Eu vejo os mundos ficando mais parecidos.

 

 

Isso não irrita os fãs mais tradicionais, que querem nas telas uma reprodução fiel daquilo que veem nas páginas das revistas?

Existe esse movimento muito forte, mas...  como vou falar isso de uma maneira mais polida?... O nerd hardcore dos quadrinhos é muito apegado à sua cultura. Eu li quadrinhos a minha infância e juventude inteira e sempre quis ter mais pessoas para conversar sobre isso. Essa sempre foi a minha cultura. Mas têm algumas pessoas que se sentem proprietárias da cultura. A gente viu tentativas de boicote em vários filmes, como CAPITÃ MARVEL, MULHER-MARAVILHA, PANTERA NEGRA. Mas acho que isso vai acontecer cada vez menos e cada vez menos temos que dar mídia para esse pessoal. Tem uma palestra que eu faço que se chama “Como falar de quadrinhos sem nunca ter visto nenhum”. Porque eu quero que as pessoas assistam ao filme e cheguem amanhã no trabalho e consigam conversar, sabe? Não precisa ter lido quadrinhos a vida inteira para gostar daquilo. Eu, como fã de quadrinhos, preciso que cada vez mais pessoas gostem desse universo. Porque a mídia quadrinhos, se ficar só com os fãs hardcore vai acabar. Se não houver renovação de público, vai acabar. Os filmes salvaram a indústria dos quadrinhos, essa é a grande verdade. Isto não é uma coisa de agora. Lá no Batman dos anos 60 a HQ do herói ia ser cancelada, mas aí veio o seriado com o (ator) Adam West e boom! De novo as pessoas passaram a comprar, a ir atrás do Batman.

 

 

Ainda existem grupos que carecem de representatividade no universo dos super-heróis?

Acho que nos quadrinhos já temos boa representatividade. Tem espaço para mais? Claro que tem. Mas o momento vai ser das séries e dos filmes. Estes ainda carecem muito. Os filmes carecem de personagens diferentes, as séries também ainda estão carecendo. Apesar de já termos um bom grupo. Por exemplo, recentemente tivemos duas personagens lésbicas nas séries, a Jeri, em JÉSSICA JONES, e a Alex, em SUPERGIRL. A própria série as SUPERGIRL  tem uma personagem transexual. Na TV é mais fácil de se fazer, mas ainda estou esperando mais dos filmes. A PATRULHA DO DESTINO, que acabou de estrear pelo serviço de streaming da DC, não colocou a personagem transexual que tem nos quadrinhos. Por que o filme da CAPITÃ MARVEL é tão importante? Porque tem duas mulheres, uma é negra, elas, em nenhum momento tem um diálogo sobre amor ou sobre um personagem masculino. Tem um outro personagem principal que é negro, eles não dependem de um branco. Tem uma criança negra. Então, se pegarmos o filme pelo aspecto da diversidade, ele é mais relevante do que o filme da MULHER-MARAVILHA, que é importante por ser o primeiro. Ele marcou um momento.

 

Fonte: Correio do Povo/Diálogos CP/Carlos Correa em 12/05/19