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A Linguagem é um Patrimônio Genético
A Linguagem é um Patrimônio Genético

A LINGUAGEM

É UM PATRIMÔNIO GENÉTICO

Novas tecnologias ajudam a ciência a mostrar que nossa carga

genética define o modo como usamos o idioma

| LUIZ COSTA PEREIRA JUNIOR, DA REVISTA LÍNGUA PORTUGUESA

 

A linguagem é um mistério para a biologia. O brasileiro adulto costuma ter vocabulário de 50 mil palavras, uma fração da reserva lexical estimada no idioma, de mais de 1 milhão de palavras circulantes. Um repertório amplo como esse, no entanto, é produzido por algo como 40 das 90 unidades distintivas de som de fala (os fonemas) disponíveis à espécie humana. Criar um vocabulário tão vasto e frases complexas com tão pouco número de sons deveria ser um obstáculo à linguagem, costuma dizer Aniela Improta França, do Departamento de Linguística da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Mesmo assim, constata Aniela, antes dos 3 primeiros anos de vida já estamos integrados à comunidade linguística de nossos pais, com o dom de ouvir, pensar e produzir conteúdo verbal ou gestual dotados de qualidades estruturais, discursivas, atentos ao contexto e à pressão de tempo imposta pela comunicação oral, que funciona em fluxo ininterrupto e numa velocidade de 5 sílabas por segundo. Tudo porque a linguagem é uma costela da biologia.

Desde os anos 50, quando o linguista norte-americano Noam Chomsky estabeleceu as bases para um programa de pesquisa que considera a linguagem uma capacidade inata do ser humano, o entendimento sobre o assunto tem se ampliado com novas técnicas para estudar o cérebro, mapear genomas, decifrar o registro fóssil, entender o comportamento animal e imaginar processos evolutivos.

– Que a linguagem depende do cérebro não é novidade para ninguém ao menos desde o século 19. A grande questão das últimas décadas é o quanto a gramática também depende da arquitetura cerebral – avalia Andrea Moro, professor de linguística geral do Instituto de Estudos Avançados, de Pavia, na Itália.

Grande parte das delimitações consagradas por mais de cem anos sobre a localização e o processamento da linguagem têm sido revistas. Alterações cognitivas, investigadas não mais por meio de autópsia ou testes indiretos, mas por técnicas modernas de imagem funcional e fisiologia elétrica, vão gradualmente formando outros modelos de relação cérebro-língua.

 

SINTAXE

 

A ciência atual já parte do princípio de que saber uma língua significa ser capaz de compreender e produzir sequências de palavras nunca escutadas ou criadas antes, a partir de um conjunto mínimo de palavras. E que nossa capacidade de compor palavras em raciocínios (a sintaxe) ativa uma rede neuronal específica no cérebro. Mas já refinou o olhar e agora sabe que nós usamos mais do que uma mera rede localizada.

– Se olharmos para todas as línguas, vemos certos tipos de regras em comum. Há regras, por exemplo, para inverter a ordem de todas as palavras de uma frase. A ausência dessas regras já foi atribuída a fatos culturais, arbitrários e convencionais. Com o uso de técnicas de neuroimagem, temos visto que regras como essa não ativam a rede do cérebro dedicada à sintaxe de uma língua específica. Então, ela não é aprendida. Aprender uma língua não é tão diferente de ter um poder de computação infinita, que já está no cérebro desde o nascimento, como Chomsky previu.

 

Obviamente, pondera Moro, a sintaxe inata seria só o ponto de partida. Em seguida, cada língua tem suas próprias experiências, interfaces, características e história. Mas todas as gramáticas, de todas as línguas, seriam fundadas numa capacidade gramatical contida no cérebro, que a experiência social da linguagem exercita em uns idiomas e não em outros. Crianças japonesas, por exemplo, perdem a distinção entre r e l antes mesmo de começarem a falar, provou o neurocientista Jacques Mehler, da Scuola Internazionale Superiore di Studi Avanzati, em Trieste, também na Itália.

 

UNIVERSAL

Segundo Esmeralda Vailati Negrão, professora titular no Departamento de Linguística na Universidade de São Paulo, Chomsky trouxe para o estudo das propriedades da linguagem humana uma perspectiva biológica, ao defender desde os anos 50 que a linguagem é um componente da mente, determinada pela dotação genética da espécie.

– Chamava a atenção de Chomsky o fato de que nossa capacidade de criar e interpretar sentenças vai muito além da habilidade de repetir sentenças que já foram produzidas e ouvidas. Além disso, observando o desenvolvimento linguístico das crianças, vemos que muito rapidamente e cedo elas passam a produzir sentenças complexas, sendo que os dados a que estão expostas não condizem com essa complexidade. A explicação proposta para essa capacidade criativa para a linguagem, e as características do processo de aquisição da linguagem pela criança, foi a de que algo já nasce conosco – diz a professora.

Até Chomsky, presumia-se que as línguas eram tão variadas que você jamais encontraria qualquer coisa que fosse geral nelas. A aquisição da linguagem devia ser basicamente uma questão de aprender propriedades lexicais, a partir da experiência. O linguista mostrou que a linguagem está relacionada com genética, o que chamou de “gramática universal”.

 

PORTUGUÊS

A GU é o dote biológico que possuímos e nos permite adquirir uma língua. Alguns tipos de restrições de desenvolvimento ou fatores de arquitetura desempenham papel no crescimento e na evolução da linguagem. A experiência linguística, por sua vez, vai fazer algumas escolhas. Não necessariamente as principais.

– É claro que os estudos sobre o português, especificamente sobre o português brasileiro, trouxeram contribuições muito importantes para esse processo – diz Esmeralda Negrão.

Um exemplo ficou conhecido como o Parâmetro do Sujeito Nulo, diz a professora. Segundo esse parâmetro, as línguas do mundo se dividem em idiomas que permitem sujeitos nulos (com mecanismos capazes de permitir a interpretação de uma posição de sujeito vazia, como o italiano e o espanhol) e línguas que não permitem sujeitos nulos.

– Os estudos sobre o português brasileiro mostraram que essa língua permite sujeitos nulos somente sob certas condições, o que resultou no reconhecimento de um novo conjunto de línguas, conhecidas como “línguas de sujeito nulo parcial” – explica Esmeralda.

A teoria de Chomsky tem sido reforçada nos últimos tempos por comprovações empíricas. Laura-Ann Pettito, do Departamento de Psicologia da Universidade de Toronto, por exemplo, mostrou que somos bimodais (usamos tanto linguagem verbal como gestual) porque algum lugar no giro temporal superior (uma área superficial do córtex cerebral) reconhece padrões de sons e sinais que se repetem na ordem de 1 ou 1,5 hertz. Isso seria a base das estruturas silábicas de todas as línguas.

Uma criança tem a capacidade inata de adquirir uma vasta gama de possíveis gramáticas, que são, então, selecionadas pelos dados de um ambiente específico e uma experiência humana determinada. Em 2002, o pesquisador Charles Yang, do Departamento de Linguística e Ciências de Computação e Informação da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, mostrou que a aquisição da linguagem revela, entre outras coisas, um padrão de formas sem alvo aparente, em que a criança omite sujeitos ou objetos (diz “Bom” em vez de “Ele me faz cócegas”). Os alvos reais da mensagem não aparecem nos dados de entrada, mas são consistentes com gramáticas como o mandarim, que omite os temas do discurso. Essas formas não alvo são gradualmente eliminadas em línguas como inglês e português. Contidas na gramática universal, permanecem no chinês, selecionadas pela vivência de mundo da língua chinesa ao longo do tempo.

 

CERTEZA

Investigações sobre as bases neuronais e elétricas da linguagem, por sua vez, revelam que a linguagem envolve um enorme conjunto de subprocessos, como a memória, a atenção e as conexões envolvendo interfaces (entre a percepção e a articulação verbal, e entre intenção e representação de conceitos), impossíveis de dimensionar só por uma disciplina.

Ao menos desde 2001, Moro compila ou participa de estudos feitos com técnicas de neuroimagem (como tomografia computadorizada por emissão de pósitrons e ressonância magnética funcional). Num deles, buscou as redes neuronais específicas que seriam estimuladas no cérebro de falantes do italiano e do inglês a quem eram apresentadas sentenças sem sentido ou agramaticais. Seria o equivalente de apresentar, em português, algo como:

“O amarelouco é uma açãoneta.

As açãonetas depositongolo o breconildo. O amarelouco depositongolo o breconildo.”

Frases nonsense como essas seguem o padrão que fundamenta silogismos como:

“A galinha é uma ave.

Aves põem ovos.

A galinha põe ovos.”

Experimentos como o de Moro têm indicado que, ante uma linguagem artificial não recursiva, o cérebro não ativa a área neuronal dedicada à sintaxe. Isso tem ajudado a questionar a ideia clássica de que a linguagem é um instrumento para expressar conteúdos e certezas da mente – como se a língua fosse um mero código a que consultamos quando desejado.

Fomos convencidos ao longo da história de que a linguagem é veículo. As certezas nascidas na mente seriam externalizadas, levadas ao mundo por esse veículo. Mas as evidências da tecnologia, defende Moro, indicam que esse mecanismo de produção de certezas é ilusório, pois usamos outras partes do cérebro para dar conta de sentenças, em particular as especiais ou de sentido complexo. Elas se tornam reconhecíveis, são processadas pela mente, mas não pelo aparato de linguagem capacitado a reconhecer arranjos sintáticos válidos. Nossas certezas não usam a linguagem, estão linguagem. Exigem mais da mente inteira. É parte do cérebro todo, interno, não algo exterior à mente, como um código aprendido.

 

HEMISFÉRIOS

Até pouco tempo, acreditou-se que a linguagem era centrada unicamente num dos lados do cérebro. As áreas corticais da linguagem se localizariam, nos destros, no hemisfério cerebral esquerdo e, nos canhotos, no esquerdo ou no direito.

A LINGUAGEM NO CÉREBRO

CONVERSA – A explicação tradicional sobre a “viagem” da linguagem pelo cérebro mostra que nossa compreensão se dá na área de Wernicke, no lobo temporal esquerdo. Nela, há a transformação dos sons em ideias. Quando a palavra é ouvida, o som é percebido no córtex auditivo primário e transmitido à área de Wernicke. Lá, a informação auditiva é processada, interpretada e enviada, por meio do fascículo arqueado, para a área de Broca, porção do giro frontal inferior, que produz a fala no lobo frontal esquerdo. Esse “programa de vocalização” é transmitido para o córtex motor, que estimula os músculos da fala. Hoje, estudos começam a contestar esse mecanismo.

De fato, nossa compreensão da linguagem se dá na área de Wernicke, no lobo temporal esquerdo. Nela, ocorre a transformação dos sons em ideias ou a de significante em significado. Quando a palavra é ouvida, o som é percebido no córtex auditivo primário e transmitido à área de Wernicke. Lá, a informação auditiva é processada, interpretada e enviada, por um grande conjunto de fibras nervosas chamadas “fascículo arqueado”, para a área de Broca, porção do giro frontal inferior, que produz a fala no lobo frontal esquerdo. Esse “programa de vocalização” é transmitido para o córtex motor, que estimula os músculos da fonação.

Esse é o mecanismo básico, mas a neurociência cognitiva tem provado que, se o processamento é de fato lateral para captação, armazenamento e produção de palavras e arranjos entre elas, a criação de conceitos é bilateral, usando uma parte muito mais ampla do cérebro, a uma só vez.

Os conceitos são armazenados no cérebro sob a forma de registros “inativos”. Quando reativados, esses registros recriam as sensações e as ações associadas a uma entidade ou a ou táteis de sua cor, temperatura, odor e gosto como de forma e textura do copo, além do caminho feito pelo braço até o rosto e os movimentos da mão e da boca quando bebemos. Essas representações são recriadas em distintas áreas do cérebro, todas ao mesmo tempo, e atuam juntas quando processamos conceitos.

– Técnicas de ressonância magnética têm demonstrado a resposta da linguagem em multipontos. O que significa que as articulações de linguagem exigem um tipo de esforço amplo da mente – diz o linguista português Luís Cavaco-Cruz.

Para Cruz, isso seria evidência direta de que devemos, por exemplo, adotar os mesmos critérios para escrever com clareza tanto um texto especializado quanto aqueles que adotamos quando se cria um texto para leigos. Não convém, por exemplo, redigir um texto como se o interlocutor soubesse de antemão o que se passa na nossa mente, pois qualquer que seja o conceito (um copo de cerveja, o voo de um pássaro, a lei de trânsito, uma teoria científica, um raciocínio filosófico, etc.) vai exigir um esforço de todo o cérebro, maior do que aquele que temos quando interpretamos palavras em estado de dicionário.

 

MENTE

Na prática, ao ativar uma palavra, ativamos outras representações, que competem entre si por reconhecimento, diz Aniela. A palavra “barata” nos ativa representações mentais de palavras de som parecido (como “batata”, “rata”, etc.), de campo semântico similar (“formiga”, “inseto”, etc.) e “baratear”, “barato” ou “baratinha”, da mesma raiz “barat-”. E ativa, é claro, a representação da palavra-alvo, “barata”, que acaba por ganhar a competição.

“Seja lá o que for a linguagem, o fato é que pode estar distribuída em diferentes partes do cérebro, simplesmente. Talvez ela possa ser copiada, de modo que você pode fazer cópia de uma parte e mantê-la, e pode eliminar o resto”, reitera Noam Chomsky no recém-lançado A Ciência da Linguagem (Editora Unesp).

Esse tipo de afirmação põe em dúvida a certeza universalizada de que o processo da linguagem, interno, constrói um tipo de representação fonética que é então interpretado pelo sistema sensório-motor, que permite externalizar a linguagem (de forma verbal ou gestual). Poderia, de fato, ser o caso de que nosso cérebro envie algumas partes do que falamos e interpretamos antes de enviar outras. A informação colhida em nossos ouvidos e olhos, por sua vez, pode ser enviada por meio de estímulos diferentes e em momentos diferentes ao cérebro. Uma ideia ainda não demonstrada, afora a confirmação de que acionamos partes distintas do cérebro a depender da tarefa a ser executada.

 

SEM CONSENSO

Outras previsões da ciência têm sido confirmadas nas últimas décadas:

- Desde 1977 já se sabe que os sistemas neurais que garantem produção e percepção da prosódia (tons da fala, etc.) estão no córtex temporal direito;

- A mente aciona distintos mecanismos de memorização conforme a modalidade de aquisição, se auditiva ou visual, provou-se em 1992, mas é a base do lobo temporal que memoriza palavras, sabe-se desde 1986.

- A área de Broca, corresponsável pela manipulação de regras gramaticais – como descoberto em 1972 – está relacionada à memória de curta duração, como se verificou em 1996.

Achados diversos como esses foram tantos entre as décadas de 70 e 90, que hoje há pouco consenso sobre a neuroanatomia da linguagem.

Estamos longe das certezas categóricas. Um estudo publicado na revista Nature 507 (6 de março de 2014: 94-98), por Greg Cogan, da Universidade de Nova York, e Bijan Pesaran, do Langone Medical Center, sugere que os próprios processos de discurso, que envolvem ouvir e falar, ocorrem em ambos os lados do cérebro. Eles seriam distintos da língua, que envolve construção e entendimento de frases e ocorre no lado esquerdo.

A comunidade científica no passado postulava que usamos só um dos lados do cérebro para todas essas funções da linguagem. Mas faziam isso com medições indiretas da atividade cerebral. Já os dois pesquisadores testaram as partes do cérebro que foram usadas durante o discurso de pacientes com epilepsia, por meio de eletrodos colocados diretamente no interior e na superfície do cérebro, que já eram usados em seu tratamento. As pessoas foram solicitadas a repetir várias vezes duas “não palavras”, pob e kig. O exercício mostrou que ambos os lados do cérebro foram acionados. Ou seja, a fala é, na verdade, bilateral.

 

ARQUEOLOGIA

Talvez o único consenso da biologia da linguagem seja o de que, para entender essa faculdade inata, o estudo deve envolver muitas disciplinas, até arqueologia e teoria evolucionista. Evidências fósseis mostram que o sistema sensório-motor parece ter surgido centenas de milhares de anos antes do uso da linguagem, que surgiu de forma brusca há cerca de 60 mil anos, com a difusão da espécie da África para a Eurásia.

Não basta ter um sistema sensório-motor para ter linguagem. Outros primatas têm línguas e orelhas, por exemplo. Nem todos têm a laringe mais baixa, como os humanos, mas os veados  possível, também, que a comunicação seja um desenvolvimento tardio, e não tenha tido grande efeito sobre a estrutura da linguagem.

– Todos os animais se comunicam e muitos usam símbolos, como o gato que marca o território com o cheiro de sua urina. Mas só os humanos têm a capacidade de gerar significados de símbolos a partir de diferentes composições – diz Andrea Moro.

 

MERGE

As estruturas do cérebro, portanto, devem ter estado em nossos ancestrais hominídeos por um longo período antes que uma coisa como essa explosão súbita da linguagem ocorresse na espécie. Isso derruba a suposição dominante de que a linguagem evoluiu lentamente por meio de seleção natural. E de que a função da língua é a comunicação.

Segundo Esmeralda Negrão, no início dos anos 90, a área de pesquisa criada por Chomsky passou por reformulações, o que ficou conhecido como “programa minimalista”. A gramática passa a ser pensada como um componente computacional no qual as palavras são concebidas como feixes de traços que se combinam segundo um padrão fixo. Essa operação de combinação de itens lexicais recebe o nome técnico de merge (traduzido por alguns como “concatenar”, por outros como “conectar”).

Em algum ponto da linha evolutiva houve uma mutação que levou a conexões cerebrais que nos permitiram desenvolver merge, a operação que nos permite tomar objetos mentais já construídos e fazer objetos mentais maiores a partir deles. É o princípio computacional básico de todas as línguas naturais.

 

GRAMÁTICA UNIVERSAL

GRAMÁTICA INATA + EXPERIÊNCIA

LINGUÍSTICA = IDIOMA NATURAL

– As gramáticas de todas as línguas são fundadas numa capacidade gramatical inata, contida no cérebro, que a experiência social da linguagem exercita em uns idiomas e não em outros. Crianças japonesas, por exemplo, perdem a distinção entre r e l antes mesmo de começarem a falar.

 

Chomsky diz, em A Ciência da Linguagem, que, uma vez que você adquire essa técnica de construção e uma infinita variedade de expressões estruturadas hierarquicamente para fazer uso dos sistemas de pensamento disponíveis, você pode subitamente pensar, planejar, interpretar, fazer uso sofisticado de ferramentas, criar arte, representação simbólica, cuidados detalhados de eventos externos (fases da Lua etc.), de uma maneira que ninguém podia até então. Só depois disso teria surgido o que quer que tenha desenvolvido a linguagem.

A capacidade de os neandertais produzirem sons que o Homo sapiens usa hoje tem sido contestada pela estrutura óssea do giro frontal superior do cérebro. Se os neandertais falavam, eles o faziam não porque tinham a capacidade auditiva e fonadora para processar as frequências sonoras associadas à fala, mas porque seu genoma teria a variante humana moderna do gene FoxP2, conhecido por desempenhar algum papel, necessário, mas não suficiente para a fala humana.

Se as capacidades cognitivas humanas são fundadas biologicamente, elas possuem limitações. Chomsky mostrou que a linguagem está relacionada com dotação genética, mas não só: está relacionada com leis sobre a maneira como o mundo funciona. Existiria uma propriedade do mundo que nos faria funcionar de uma dada maneira. As explicações podem ser religiosas (“porque Deus quis”, o que encerraria a questão sem respondê-la), ou de ordem físico-biológica – a linguagem inata, a distribuição dos neurônios no cérebro, as leis da natureza que impõem uma estrutura em sistemas como o sensório-motor.

Não chegamos a arranhar o problema. Mas que ele está lá, está.

 

Fonte: Revista Educação-Ano 23 nº 267 - Maio/2020