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O Que se Aprende com Livros sobre Escrita
O Que se Aprende com Livros sobre Escrita

O QUE SE PODE APRENDER COM LIVROS SOBRE ESCRITA?

Jornalista comenta manuais publicados por nomes como Stephen King, William Zinsser e Ray Bradbury

Ler e escrever muito, concisão e frase inicial que fisgue o leitor são algumas das principais dicas

 

A escrita é um dom inato ou pode ser aprendida com esforço e dedicação? A questão é controversa, mas grandes escritores contaram suas experiências e deixaram valiosos ensinamentos em livros sobre a arte de escrever. Jornalista comenta a seguir os principais conselhos de nomes como Stephen King, C.S. Lewis, Ray Bradbury e Schopenhauer.

 

No romance "Misery" (1987), um escritor (Paul) é mantido prisioneiro por uma fã (Annie), furiosa porque ele matou a personagem principal de seu livro. Ela tortura Paul e exige que ele reescreva a história.

 

O thriller de Stephen King, recorde de vendas, deu origem a um filme igualmente exitoso em 1990, "Louca Obsessão", com James Caan e Kathy Bates (Oscar de melhor atriz pelo papel de Annie) nos papéis principais. Livro e filme deixaram os escritores da época assustados.

 

Psicose à parte, muitos leitores gostariam de conhecer a intimidade de seus escritores favoritos, saber os seus métodos de trabalho, como buscam as ideias para as suas histórias, quantas horas trabalham por dia. Da mesma forma, os escritores iniciantes desejam receber dicas dos seus mestres.

 

Há centenas de livros sobre escrita e escritores, que narram as experiências de autores famosos e trazem conselhos a quem pretende seguir a carreira literária.

 

A maioria deles foi publicada nos Estados Unidos, onde o mito de que um escritor nasce pronto por dádiva divina é visto com descrença. Tanto que várias universidades americanas mantêm programas para novos escritores, por acreditarem que, embora o talento seja um excelente começo, sempre pode ser afinado com técnica e treino, a exemplo do que acontece com atores e pianistas.

 

Comece agora

Reuni uma pequena biblioteca sobre escrita, que tem Stephen King, C.S. Lewis, Stephen Koch, William Zinsser, Ray Bradbury e Schopenhauer.

 

Autor de "Oficina de Escritores", Stephen Koch propõe ao iniciante não procrastinar. "Só há um jeito de começar: é começar agora", ele ensina. Por mais de duas décadas, lecionou em pós-graduação de escrita literária e viu muitos alunos passarem dias com a página em branco, à espera de que uma boa história caísse do céu.

 

"Não adianta dizer que você ainda não tem a história. Claro que você ainda não sabe a história. Você é a primeira pessoa no mundo a contá-la e não pode conhecer a história até que ela seja contada. Primeiro você conta, depois fica sabendo", diz Koch.

 

Não se apavore com o bloqueio, ele alerta. Até o Prêmio Nobel de Literatura de 1982, Gabriel García Márquez travou, conta Koch.

 

Márquez só liberou o turbilhão de histórias mágicas após ver a primeira frase de "A Metamorfose", de Franz Kafka: "Naquela manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa viu-se na cama, transformado num gigantesco inseto".

 

 

"Ao ler a frase, pensei comigo mesmo que não sabia que alguém tinha permissão para escrever coisas assim. Se soubesse, teria começado a escrever há muito tempo. Então, imediatamente comecei a escrever contos", confessou o escritor à revista Paris Review (1999).

A partir daí, o colombiano brindou o mundo com centenas de personagens que flutuam entre a fantasia e a realidade em obras extraordinárias como "Cem Anos de Solidão" (1967), "O Outono do Patriarca" (1975) e "O Amor nos Tempos do Cólera" (1985).

 

Ler e escrever

Para "exercitar os músculos", Ray Bradbury recomenda a leitura diária de poesia em "O Zen e A Arte da Escrita". Escritor e roteirista americano, autor de "Fahrenheit 451" (1953) e "Crônicas Marcianas" (1950), ele popularizou a ficção científica. Escreveu roteiros para televisão e cinema, entre eles a versão para as telas de 1956 de "Moby Dick", clássico dirigido por John Huston.

 

Ler e escrever muito também é o conselho de Stephen King em "Sobre a Escrita". No livro, ele mescla memórias e dicas aos escritores iniciantes. "Se você quer ser escritor, não há como fugir dessas duas coisas, não há atalho", diz.

 

Mestre da literatura de terror e suspense, King escreveu 60 romances, boa parte best-sellers —"Carrie" (1974), "O Iluminado" (1977), "A Zona Morta" (1979)— transformados em filmes de sucesso.

 

Truman Capote, autor de "A Sangue Frio" (1966), um clássico do chamado novo jornalismo, contou à Paris Review (1957) ser um leitor obsessivo. "Lia de tudo, inclusive rótulos, receitas, anúncios, além de jornais", diz.

 

Em voga nas décadas de 60 e 70, o novo jornalismo (new journalism), um estilo de não ficção, combinava a reportagem à narrativa literária e consagrou vários autores, entre eles Tom Wolfe ("A Fogueira das Vaidades") e Gay Talese ("O Voyeur").

 

Para quem quer conhecer o dia a dia de trabalho e como pensam e vivem os mestres da literatura, a série da revista Paris Review é um tesouro. Fundada em 1953, a revista publicou entrevistas com mais de 300 autores, tornando-se um rico manual sobre ficção.

 

Várias coletâneas dessas conversas foram publicadas no Brasil. As mais recentes, editadas pela Companhia das Letras em dois volumes, trazem, além de Capote, entrevistas com Ernest Hemingway, Manuel Puig, Amos Oz, William Faulkner, Paul Auster, Jorge Luis Borges, Billy Wilder, W.H. Auden, Javier Marías, Ian McEwan, Primo Levi e Doris Lessing. Um "dream team" da literatura mundial.

 

Esgotado, o volume 1 pode ser conseguido em sebos pela Internet a preços que ultrapassam R$ 150. Todas as entrevistas estão disponíveis no site da revista.

 

Fisgar o leitor

Stephen King diz que a maioria dos leitores não são atraídos pelos méritos literários de um romance. "Eles querem mesmo é uma boa história para levar consigo no avião, algo que primeiro os fascine, depois os impulsione e os mantenha virando as páginas", diz o escritor.

 

O que atrai o leitor é vida, acrescenta, fornecendo a receita de um bom livro: escreva o que quiser, depois encharque a história de vida e a torne única, acrescentando seu conhecimento pessoal e intransferível do mundo, da amizade, do amor, do sexo e do trabalho.

 

"Especialmente do trabalho", recomenda King, "as pessoas adoram ler sobre o trabalho". Cita como exemplo "A Firma", de John Grisham, "thriller" badalado de 1991, que dois anos depois virou filme estrelado por Tom Cruise e Gene Hackman.

 

Corte os excessos

Stephen King, William Zinsser, Schopenhauer, C.S. Lewis e Stephen Koch são unânimes em defender a prática da concisão para salvar os leitores dos excessos.

 

Autor de "Como Escrever Bem", que vendeu mais de 1 milhão de exemplares, Zinsser dedica várias páginas de seu livro à guerra aos excessos, uma mania americana.

 

"É como lutar contra as ervas daninhas. O escritor fica sempre um pouco para trás. Novas variedades brotam durante a noite e ao meio-dia já fazem parte do discurso americano", diz o escritor nova-iorquino.

 

Para ele, a sociedade americana é sufocada por palavras desnecessárias, construções circulares, afetações pomposas e jargões sem nenhum sentido.

 

Zinsser cita os adjetivos "pessoal" e "particular" em "um amigo pessoal meu", "seu sentimento pessoal" ou "seu médico particular". Todos podem ser eliminados.

 

"No momento" e "atualmente" são outros (maus) exemplos: "todos os nossos operadores estão ocupados no momento"; "atualmente, estou trabalhando na Bolsa de Valores".

 

King se dedica a arrancar os advérbios dos textos, "antes que proliferem total, completa e extravagantemente", brinca o romancista, que também defende uma cruzada contra a voz passiva. "A reunião será as sete, e não a reunião será realizada às setes horas."

 

Parágrafos curtos

"Escrever é algo visual. As letras capturam os olhos antes de poderem capturar a mente. Parágrafos curtos arejam o que você escreve e deixam o texto mais convidativo, enquanto um acúmulo longo demais de palavras pode desencorajar o leitor a começar a leitura", diz Zinsser.

 

C.S. Lewis, em "Sobre Escrever", recomenda não usar adjetivos que meramente nos digam como o autor quer que nos sintamos sobre o que ele está descrevendo.

 

"Assim, em vez de nos dizer que uma coisa era terrível, descreva-a de modo que fiquemos aterrorizados. Não diga que foi prazeroso; faça com que nós digamos "prazeroso" ao lermos a descrição", resume Lewis.

 

Outra dica é reescrever. "É a essência de escrever bem: é onde se ganha ou se perde o jogo", ensina Zinsser.

 

Ernest Hemingway refez 39 vezes a última página do livro "Adeus às Armas" até ficar satisfeito, como revelou à Paris Review (1958). Para King, a reescrita varia muito de escritor para escritor. Ele adota duas versões e um polimento final.

 

A primeira frase

Aqui vai um protesto contra a mania das editoras de embalar os livros com plástico, impedindo o acesso do leitor às páginas nas livrarias.

 

Dou um jeito de rasgar o plástico, porque, míope e astigmático, gosto de checar o tamanho da fonte. Se for menor que sete, abandono o livro. Também quero ler a primeira frase. Se gostar, é meio caminho para a compra.

 

 

"A frase mais importante de qualquer texto é a primeira. Se ela não levar o leitor a avançar para a segunda frase, o seu artigo estará morto", analisa Zinsser.

 

Ele dá um exemplo de um bom lead, o parágrafo inicial de uma reportagem: "Muitas vezes perguntei o que há dentro de um cachorro-quente. Agora eu sei, e preferia não saber". Duas frases curtas que chamam o leitor para o segundo parágrafo, diz ele.

 

Mas o que move um escritor?

 

Fico com a frase de Isak Dinesen, pseudônimo de Karen Blixen, utilizada pela filósofa Hannah Arendt na epígrafe do livro "A Condição Humana" (1958): "Toda grande dor pode ser suportada se você escrever sobre ela".

 

Ela me lembra Graciliano Ramos ("Memórias do Cárcere"), "O Diário de Anne Frank" e Malala Yousafzai ("Eu Sou Malala").

 

Para C.S. Lewis, a tinta é a grande cura. "Sempre que estiver farto da vida, comece a escrever: a tinta é o grande remédio para todos os males humanos, como descobri há muito tempo."

 

Livros citados

"Oficina de Escritores", de Stephen Koch
Editora: WMF Martins Fontes. Quanto: R$ 58

"Como Escrever Bem", William Zinsser
Editora: Fósforo. Quanto: R$ 75,37

"Sobre a Escrita", Stephen King
Editora: Suma. Quanto: R$ 49,94

"Sobre Escrever", C.S. Lewis
Editora: Thomas Nelson Brasil. Quanto: R$ 53,90

"As Entrevistas da Paris Review - Volume 1"
Editora: Companhia das Letras. Quanto: a partir de R$ 150 em sebos

"As Entrevistas da Paris Review - Volume 2"
Editora: Companhia das Letras. Quanto: R$ 71,18

"A Arte de Escrever", de Schopenhauer
Editora: L&PM. Quanto: R$ 23,89

"O Zen e A Arte da Escrita, de Ray Bradbury
Editora: Biblioteca Azu. Quanto: R$ 79,90

 

Fonte: Folha de S. Paulo/Bruno Blecher (Jornalista especializado em agronegócio e meio ambiente e sócio-proprietário da agência Fato Relevante. Foi editor do Agrofolha, da Folha, coordenador de jornalismo do Canal Rural, comentarista da CBN e diretor de redação da Globo Rural) em 04/04/2026