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Portugal Compra Manuscritos para Preservação
Portugal Compra Manuscritos para Preservação

A INDÚSTRIA DA MEMÓRIA: PORTUGAL COMPRA MANUSCRITOS PARA PRESERVAÇÃO

 

País adquiriu manuscritos de Fernando Pessoa e outros autores por pouco mais de 73 mil euros. Num tempo em que a tecnologia converte livros em dados e às vezes destrói o objeto para guardar a informação, há esperança num Estado que ainda compra papel

 

O gesto parece pequeno. Num leilão em Lisboa, o Estado português exerceu o direito de preferência e levou para a Biblioteca Nacional poemas de Pessoa, cartas a Ofélia Queiroz, um manuscrito de Teixeira de Pascoaes, um conto de Vitorino Nemésio e correspondência entre dois amantes condenados: Camilo Castelo Branco e Ana Plácido. Aqueles papéis ganharam algo que o mercado sozinho dificilmente garante: perenidade.

 

O contraste com a inteligência artificial é quase perfeito. No processo judicial sobre a Anthropic, tornou-se público que a empresa comprou livros impressos, cortou as lombadas, digitalizou as páginas e descartou os exemplares físicos para formar uma biblioteca digital usada no treinamento dos seus modelos. Um tribunal americano considerou “fair use” a conversão de cópias legalmente compradas. A lógica técnica é compreensível. A imagem fica: destruir o recipiente para conservar a informação.

 

Nunca foi tão fácil armazenar conhecimento e separá-lo da sua origem. Um manuscrito pode ser digitalizado em segundos. A letra, a rasura, o papel e a sequência das correções carregam outra coisa: autenticidade. Dados preservam conteúdo. Arquivos preservam proveniência.

 

Também aqui os Estados continuam essenciais. Soberania digital costuma significar nuvens, servidores, chips, cabos submarinos e inteligência artificial. Bibliotecas, arquivos e museus pertencem à mesma conversa. São recetáculos de soberania, autenticidade e memória cultural. Guardam aquilo que uma sociedade precisa reconhecer como seu, mesmo quando o mercado lhe atribui apenas um preço.

 

A isso eu chamaria indústria da memória. Uma indústria discreta, feita de instituições, especialistas e dinheiro público, capaz de agir quando algo importante aparece à venda. O Brasil já possui instrumentos legais para proteger arquivos privados considerados de interesse público e exercer preferência na aquisição. Angola atribui à sua Biblioteca Nacional o direito de preferência sobre obras bibliográficas de inegável valor. Portugal mostrou agora o valor que tem esse mecanismo funcionar na hora certa.

 

Há funções que justificam a permanência do Estado porque atravessam gerações. Empresas inovam, crescem, mudam de estratégia, são compradas e desaparecem. A memória coletiva precisa de instituições preparadas para durar mais do que uma empresa, um governo ou uma tecnologia.

 

A inteligência artificial precisa de livros para aprenderAs sociedades precisam dos livros para lembrar. Por isso, há esperança numa notícia aparentemente pequena chegada de Lisboa. Portugal comprou alguns manuscritos. Enquanto uma parte do mundo tecnológico aprende a transformar memória em dados, Portugal decidiu conservar também os originais.

 

Fonte: CNN Brasil/José Manuel Diogo/O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras em 14/08/2026