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Entrevista com educador português, José Pacheco
Entrevista com educador português, José Pacheco

“O BRASIL TEM QUE PERDER A SÍNDROME DE VIRA-LATA", DIZ PROFESSOR PORTUGUÊS SOBRE EDUCAÇÃO

Para José Pacheco, escola deve estar integrada à comunidade e priorizar relações humanas no aprendizado

 

A educação em comunidade está ligada à ideia de que a escola não deve ser uma instituição isolada do território, e que a aprendizagem não precisa ficar confinada à sala de aula. É isso que defende o português José Pacheco, que fundou a Escola da Ponte, em Portugal.  

 

Ele esteve em Porto Alegre em julho para participar do 5º Congresso Luso-Brasileiro (Conlubra 2026), promovido pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs). Conhecido por liderar projetos que são referência no mundo todo, o educador propõe uma mudança mais profunda na educação do que simplesmente criar projetos entre escola e comunidade. 

 

Desde que fundou a Escola da Ponte, em 1976, o professor vem atuando como “designer educacional”, em suas palavras, apostando em projetos para remodelar a educação.

 

Em entrevista para Zero Hora, ele levantou reflexões sobre educação e como experiências trazidas de Portugal podem aprimorar os níveis de aprendizagem no Brasil. 

 

A Escola da Ponte é famosa por fugir do modelo tradicional de sala de aula. O que diferencia esse modelo? 

Para quem visita a escola, o mais evidente é o comportamento, as atitudes, quer dos professores, quer dos alunos. As pessoas ficam surpresas porque não tem sala de aula, não tem turma, não tem prova, não tem divisão por anos e séries. Então, elas dizem “se não tem nada disso, tem o quê, então?”.

O que a Escola da Ponte tem de diferente é que é uma escola pública que garante a todos os alunos o direito à educação, mas não se limita a isso. É um processo de regeneração de um sistema educacional caduco e de humanização da relação pedagógica.

Temos ex-alunos com 60 anos ou mais que são referências. E mesmo com 50 anos do projeto, ainda está no início, porque não basta cumprir um dever moral, que é o dever de proteger e assegurar a educação dos alunos, é preciso ter um compromisso ético para que toda a humanidade seja beneficiada. No Brasil são mais de mil projetos seguindo esse exemplo. 

A escola é feita de pessoas, não de prédios. Nos preocupamos com o desenvolvimento integral da pessoa humana, e não apenas em saber matemática e língua portuguesa, que também é importante. Não há prova, não há nota. Há a construção de evidências de aprendizagem. 

 

Uma das iniciativas nesse sentido no Brasil é o Projeto Âncora. Como está sendo essa experiência? 

O Projeto Âncora (em Cotia, interior de SP) surgiu a partir de uma ONG que desenvolvia atividades de contraturno nas escolas. Eles perceberam que fazer contraturno era como tentar enxugar gelo, porque aqueles jovens tinham tudo: desporto, teatro, mas voltavam para a escola e no dia seguinte vinham iguais ou piores, era preciso uma mudança profunda. 

O projeto continua na Escola Aberta de São Paulo. Aqui no Rio Grande do Sul um dos destaques é a Comunidade de Aprendizagem Escola da Floresta, que ocorre em uma instituição municipal de Caçapava do Sul. Eu estive lá e fiquei impressionado. 

 

O que podemos aprender com esses projetos? 

Enquanto Portugal tem quase 900 anos, o Brasil, depois das descobertas, tem pouco mais de 500 anos. Mas a Europa tem uma história da democracia bem mais longa do que no Brasil. 

E os brasileiros continuam seguindo um modelo educacional da Europa, um modelo colonialista. A escola da sala de aula, da turma. Isso é herança da Revolução Industrial do século XIX. 

O Brasil tem que perder a síndrome de vira-lata, de ir lá fora procurar o que tem cá dentro. E os professores brasileiros têm de recuperar a autoestima, porque são maltratados, desrespeitados e aceitam. 

 

O professor é indispensável porque a relação não é apenas cognitiva, não é apenas conteúdo, ela é também partilhada pelo afeto, pela emoção, pela ética, pela espiritualidade, e por aí vai. E isso a máquina não faz. Por José Pacheco/professor

 

Um dos desafios que temos com a geração atual é a questão da tecnologia, os alunos estão muito dependentes dela. Como você avalia isso? 

Quando as secretarias de educação e o governo proibiram o uso celular em sala de aula, eu defendi que o uso do celular é obrigatório, porque é um instrumento de pesquisa. O importante é saber utilizá-lo, porque senão ele utiliza-nos. Nós somos o produto

Os jovens têm os seus projetos de pesquisa acompanhados pelos tutores e nos computadores, no celular, eles fazem buscas, reúnem informação, comparam informações, depois analisam criticamente a informação, fazem a síntese e a avaliação. 

Quando passa da informação para o conhecimento, eles partilham o conhecimento. O que está proibido? Usar a inteligência artificial (IA), porque a IA é um monstro.  

 

Por que você é contra? 

A IA traz tudo pronto. Tem tudo disponível, mas tudo já vem construído. Se nós pensamos em inovação, não é o caso da IA, porque tudo que está lá foi feito por outra pessoa. A IA não tem competência para fazer. Quando se fala de autonomia dos alunos, é preciso compreender que a autonomia não é individualismo, não é o trabalho sozinho. A autonomia é um conceito relacional. Eu sou autônomo em relação a ti. Esse conceito é da antroposofia de Rudolf Steiner. 

 

Se nós pensamos em inovação, não é o caso da IA, porque tudo que está lá foi feito por outra pessoa. A IA não tem competência para fazer. Potr José Pacheco/professor

 

Toda prática tem teoria. Quando nós desenvolvemos a teoria nos jovens, eles estabelecem uma relação construtiva com o companheiro. Eles trabalham em equipe, com o professor, que trabalha com a teoria, que respeita o mútuo. Aprendem a escutar, aprendem a expressar-se, a partilhar, a respeitar.

Isso é autonomia. Há muita confusão com a utilização das tecnologias digitais. Eu sou irredutivelmente anti-inteligência artificial. Quem a fez não é autônomo, e como produto humano digamos que é a infantilização do ato de aprender. Se há realmente resposta na IA, para que serve um professor?  

 

Nesse contexto, qual a importância do professor, na sua visão? 

professor é indispensável porque a relação não é apenas cognitiva, não é apenas conteúdo, ela é também partilhada pelo afeto, pela emoção, pela ética, pela espiritualidade, e por aí vai. E isso a máquina não faz. 

O digital é um excelente apoio, mas não passa disso. Normalmente, a geração seguinte tem muito mais conhecimento do que a anterior. Dados mostram que aconteceu o contrário nesta geração. Então, a IA é mais uma moda que há de passar, mas a consequência será terrível se formos por este caminho que estamos indo. 

 

Fonte: Zero Hora/Sofia Lungui em 14/08/2026