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Década de 1920, da Geração Maldita
Década de 1920, da Geração Maldita

FLAPPER, JAZZ-BABY E UMA LEVE DESGRAÇA

 

Há 100 anos o mundo entrava na década da Geração Maldita, tempo de loucura, talento, renovação estética, festa e reinvenção da literatura

 

Embora a ação principal de OS BELOS E MALDITOS ocorra pouco antes dos anos 20, o romance está impregnado do espírito dessa década. E que espírito é esse, dentro de tantas possibilidades? Sendo impossível defini-lo, melhor dizer que ele é simbolizado por uma visão ligeira da vida, surgida após a I Guerra, um interregno de prazer que viria a ser interrompido, primeiro com a Grande Depressão e, depois, com a brutalidade das ideologias totalitárias de direita que levaram os Estados Unidos a envolverem-se noutro conflito armado. Talvez toda essa gente tivesse a intuição de que a paz era provisória, e a diversão passou a ocupar um lugar central na vida das pessoas.

 

Ao lado disso, foi um período que estava à espera de que acontecesse algo transcendente, um grande acontecimento, tal como, no plano individual, ocorrera em outras circunstâncias com John Marcher, de A FERA NA SELVA. Nos Estados Unidos, é a época da explosão do jazz, e sua a figura mais característica é a flapper, palavra que, para não perder tempo com indagações semânticas, pode ser traduzida como “melindrosa”, sedutora, frívola, obscena na linguagem e sexualmente ousada, bela em seus vestidos de canutilhos, turbantes rentes ao crânio e boquinhas pintadas de carmim. Os homens, esses, tinham os cabelos lustrosos de brilhantina e ajustavam cada vez mais seus fraques. Nunca a cultura e a moda tinham experimentado algo parecido, cada dia era uma magnífica surpresa. Claro, estamos a falar de certa classe social, rica, minoritária, cínica e irresponsável; a maior parte da população, mesmo nos Estados Unidos, vivia ainda sem acesso aos bens mais corriqueiros e, na Inglaterra, os mineiros apodreciam nos sombrios subsolos do carvão. Como se percebe, o quadro não é tão simples de ser pintado.

 

     

 

Aí é que entra a obra de F. Scott Fitzgerald, OS BELOS E MALDITOS. Falar nesse autor é lembrar de imediato de O GRANDE GATSBY. Nada mais natural, pois esse romance de 1925 acabaria por tornar-se o mais notório do grande escritor norte-americano. Aliás, a quase totalidade dos leitores de Fitzgerald só teve contato com o Gatsby, e não são poucas as pessoas que assistiram a algum dos quatro filmes que se fizeram com seu argumento e, com isso, dando por lido o romance.

 

Todo esse êxito, entretanto, põe à sombra as outras produções literárias saídas da mesma máquina de escrever, antes ou depois do Gastby, e esse olvido é uma imensa perda cultural.

 

OS BELOS E MALDITOS talvez seja o romance que mais retrata o tal espírito da década de 20. Saiu em 1922, quando Fitzgerald já era o autor consolidado de ESTE LADO DO PARAÍSO e de FLAPPERS E FILÓSOFOS. Autoconfiante, ele dizia que ninguém poderia ter escrito tão acuradamente a história dos jovens de sua geração. Jovens: sim, ele tinha 24 anos. Mas se o GATSBY e OS BELOS E MALDITOS saíram na mesma década, por que um é mais representativo do que o outro? Trata-se de uma questão de abrangência do enfoque: enquanto Jay Gatsby está envolvido em sua obsessão por Daisy Buchanan e todo o romance gira em torno disso, num círculo claustrofóbico sem grandes variações de espaciais e temporais, com escassas referências paralelas ao meio social, já Anthony Patch, personagem central de OS BELOS E MALDITOS, é um homem que circula, que tem relações em Nova Iorque e não só, é seu caso de amor, embora sulfuroso e violento, não o impede de estar de olho nas modas e costumes, o que inclui a vida artística, nomeadamente a música popular e os shows dos cabarés. Ele mantém uma amizade complicada com um romancista destinado ao fracasso, e com ele dialoga sobre as circunstâncias da vida literária; enfim, se Patch se insere em sua época, Jay Gatsby foge dela.

 

Quanto ao conteúdo, mais do que à trama: tal como Tom Wolfe faria anos mais tarde com A FOGUEIRA DAS VAIDADES, o romance OS BELOS E MALDITOS retrata um descenso de status. A diferença está em que, se Sherman McCoy perde tudo para sempre, o dinheiro, a honra, o conceito de seus pares, o amor, a família, os bens e a própria liberdade, Anthony Patch, com seu etos superficial, sabe esgueirar-se incólume entre os alçapões do destino e, depois de um revés, sabe recuperar tudo, e sem perder o ar blasé e levemente dândi.

 

A flapper do romance é Gloria Gilbert, por quem naturalmente, Anthony Patch se apaixona de forma avassaladora. Já no primeiro contato, “ela parecia falar por puro prazer em si, sem nenhum esforço. Anthony, sentado em uma extremidade do sofá, examinava o perfil dela contra o fundo da luminária: a rara regularidade do nariz e do lábio superior, o queixo ligeiramente obstinado, belamente equilibrado em um pescoço um tanto curto. Em fotos, ela deveria parecer totalmente clássica, quase fria – mas a luminosidade de seus cabelos e de suas faces a tornavam a pessoa mais viva que ele jamais vira”. Estão postas as condições para que Anthony estabeleça com ela uma relação de início venturosa, logo de pesadelo, e, nessa débâcle que se revelaria provisória, ambos são responsáveis pois não conseguem superar suas frívolas preocupações. E o moço Patch, faz o quê? Teoricamente, pretende um dia pesquisar a fim de escrever um vago livro sobre os papas do Renascimento. Mas, de modo sintético: Patch faz literalmente nada. Passeia por Nova Iorque, frequenta lugares caros, toma banhos demorados, desfruta a vista de seu apartamento. Subsiste de rendas que lhe caíram do céu, e sua ocupação mais cultivada é aguardar que morra seu avô, do qual espera receber uma fortuna consignada em testamento, a qual deve girar em torno de 30 milhões de dólares, nada mau. Assim, depois que acontecer a tediosa burocracia que inclui morte do avô, inventário e cartório, mudar-se-á para a Europa.

 

Muito já se disse que Gloria Gilbert é a transposição literária da polêmica Zelda Sayre, mulher de Fitzgerald, pessoa de luz própria, ficcionista, poeta, dançarina, pintora e mulher de sociedade, a quem ele chamava de “a primeira flapper americana”. Muitos dos amigos de Fitzgerald a odiavam, dizendo que só prejudicava o marido e queriam separá-los, mas ele a prejudicava também, com seu alcoolismo destrutivo e seu gênio borrascoso. Da parte dela, talvez uma questão médica: Zelda foi diagnosticada com esquizofrenia, e o final de sua vida foi pontuada por entradas e saídas em estabelecimentos psiquiátricos. Já Gloria Gilbert pode ser tudo, menos insana. É uma mulher que quer viver sua vida com a maior leveza e opulência possíveis, a começar por jantares em restaurantes da moda e sessões musicais de jazz, o que a transforma numa autêntica jazz-baby, outra figura representativa da época. Sob qualquer olhar, era uma mulher incontornável.

 

Durante todo o tempo em que estiveram juntos, Gloria e Anthony viveram como gato e rato, com não raras pancadarias, e, de modo inconsciente, esperavam que tudo se resolvesse com a verba testamentária do avô que tardava em morrer: “À medida que o verão encolhia, Anthony e Gloria conversavam sobre as coisas que fariam quando o dinheiro fosse deles, e sobre os lugares onde iriam, no pós-guerra, quando ‘chegariam de novo a um acordo’, pois ambos tinham esperança de um período em que o amor, renascido como fênix das suas próprias cinzas, haveria de surgir de novo de seus misteriosos e insondáveis esconderijos”.

 

F.Scott Fitzgerald e Zelda

 

As coisas não acontecem como o esperado, senão deixaria de ser uma narrativa ficcional. Não tenho problemas com spoilers, até peço que me contem os finais dos romances, pois irei lê-los com intenção de descobrir quais os artifícios usados pelo escritor para chegar lá, mas não sei se é o caso de quem chegou até aqui, e por isso me abstenho de contar como termina OS BELOS E MALDITOS, mas não fará mal se disser que, ao fim e ao cabo, Anthony Patch termina exatamente como começou, isto é: ele não se transforma, o que comprova que nem sempre a personagem se transforma; não é por viver uma história que alguém deixa de ser o que é. O que acontece é que a personagem passa a ter outra perspectiva acerca do conflito da história – e aí estamos falando noutra coisa, diferente de transformação. E é exatamente isso que acontece com Anthony Patch.

 

O capítulo final tem um título cheio de conotações relativas à década de 20: “Não importa!”, assim mesmo, com uma exclamação. Patch passa o diabo, e seus arremedos de busca de emprego não resultam em nada, mas ele segue em frente – lá no fundo do túnel ele sabe que o espera o Grande Acontecimento, o qual virá de qualquer forma. E, tal como os destinos inexoráveis, ele vem, dando-lhe a recompensa por que tanto esperava. Portanto: a desgraça que acontece com Anthony Patch não chega a causar mossa, inserindo-se na sua conduta ligeira e expectante. Não importa.

 

Para terminar o livro, Fitzgerald escreve: “Apenas poucos meses antes, as pessoas insistiam para que ele desistisse, se submetesse à mediocridade, fosse trabalhar. Mas ele sabia que tinha razão quanto ao seu estilo de vida – e resistira bravamente.” “Grandes lágrimas nadavam em seus olhos, e tinha a voz trêmula ao murmurar consigo mesmo: - Mostrei a eles – dizia. – Foi um duro combate, mas não desisti, e venci”.

 

Anthony e Gloria são típicos habitantes da cultura e do way of life dos anos 20. Claro que não podemos reduzir esse casal à metonímia dos anos 20 norte-americanos, mas se há casal que viveu a pleno a década e suas contradições, é esse, assim como o foi também o casal Zelda-Fitzgerald.

 

Não sei se eu gostaria de ter vivido nos anos 20, sem penicilina, mas depois de um século tão chato, banal e interminável como o XIX, foi bom ter inaugurado o século seguinte (que só começaria de fato após a I Guerra) com o brilho e a originalidade desses dois casais: um, ficcional e outro, “real”. Com qual deles ficamos? A pensarmos com Umberto Eco, é melhor apostar na melhor verdade: a ficção. Na ficção, temos certeza de tudo o que aconteceu; já quanto à vida “real”, quantas dúvidas!

 

 

Fonte: Jornal Correio do Povo/Caderno de Sábado/Luiz Antonio de Assis Brasil/Escritor em 25/01/2020