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Uniformização Linguística?
Uniformização Linguística?

FUNERAIS LINGUÍSTICOS

 

E quando a Divindade quer abater a arrogância dos homens, não necessita do raio nem da violência; basta que confunda a sua linguagem, que a unidade da língua seja abolida, e a torre seja cúspide deveria tocar no céu torna-se uma ruína, como estigma da impotência humana.” Walter Porzigem em O MUNDO MARAVILHOSO DA LINGUAGEM

 

René Etiemble, professor de literatura da Sorbonne, está empenhado há anos numa intensa luta contra o perigo de descaracterização da língua francesa pela invasão incontrolável de palavras inglesas ou, pior, anglo-americanas. Em seu livro PARLEZ-VOUS FRANGIAIS? Editado há três décadas, ele se propõe a defender não apenas o idioma, mas a cultura e o modo de viver dos franceses. Não são apenas palavras de empréstimo que se insinuam no francês – diz Etiemble – mas trata-se de uma doença metastática que corrói a pronúncia, o léxico, a morfologia, a sintaxe e o estilo. E, segundo recente pesquisa, dois terços dos gauleses são favoráveis à instituição de uma terapêutica radical contra essa grave doença.

 

Há 200 anos, Rivarol afirmava: “O que não é claro não é francês”. Dessa boutade Etiemble não participa, pois sabe que nenhum idioma é autossuficiente e nem pode dispensar verbetes alienígenas para permanecer fluidamente vivo e atualizado. Porém a admissão indiscriminada de torrentes de palavras com grafia, pronúncia, forma e flexão completamente diversas da língua original pode prejudicá-la seriamente, embotando a criatividade linguística dos seus usuários e obstruindo as fontes genuínas de enriquecimento e renovação.

 

A linguagem é uma estrutura de grande complexidade, definidora da humanização do homem. O linguista Noam Chomsky afirma, e tanto neuropsicólogos como geneticistas confirmam, que a possibilidade da fala é uma condição adquirida in utero (“As crianças não aprendem a falar: já o sabem”).

Cavalli-Sforza, outro linguista, diz que o ser humano nasce com a capacidade de aprender uma língua, o que o distingue das outras espécies animais, mesmo as mais vizinhas, possuidoras de meios de comunicação limitados. A linguagem é uma criação cultural, tornada possível graças a um substrato anatômico e neurológico complexo e único no reino animal. Afinal, ela foi o principal veículo transmissor de toda a cultura e garantiu a sobrevivência e a supremacia desse ramo de primatas ao qual pertencemos. E a maravilhosa diversidade de culturas criadas pelo homem através dos tempos, é que fez surgirem milhares de idiomas.

 

Se estes fossem apenas um meio técnico para o mero exercício do comércio internacional, haveria vantagens e nenhum prejuízo em falarmos todos a mesma língua. O problema é que signos linguísticos diversos implicam em modos de pensar, de sentir e de interpretar o mundo, igualmente, diferenciados.

 

Esse é o sentido mais profundo de uma comunidade idiomática específica; o de ter uma imagem e uma visão peculiar do homem e do seu universo cósmico e mental. Por isso, quando uma língua se extingue, perdem-se milhares de anos de história do desenvolvimento cultural e da experiência psicobiossocial de todo um povo.

 

Se o desaparecimento das línguas prosseguir no ritmo atual, o futuro nos reservará uma uniformização não só linguística, mas cultural, ética, estética e mesmo ideológica. E já se tornou um truísmo afirmar-se que na diversidade está a liberdade.

 

Um exemplo ilustrativo de diversas e ricas articulações em línguas culturalmente muito próximas, oferecem as designações das várias espécies de relógios, nos idiomas alemão e francês. Em alemão, Taschenuhr é o relógio de bolso; Wanduhr o de parece; Turmuhr, o relógio da torre; Sonnenuhr, o de sol; Wasseruuhr, o de água; Sanduhr, o de areia. Quer dizer, todos os instrumentos para medir o tempo estão, primeiro, designados sob o nome principal Uhr, hora. Depois se distinguem por sua forma e maneira de funcionar. Essa distinção aumenta nossa compreensão sobre o objeto designado. O francês, diversa e caracteristicamente, coloca, nesses utensílios de uso diário, mais interesse nas diferenças de forma do que nas de funcionamento. E, assim, os nomeia: montre, o relógio de bolso; pendule, o de parede; horloge, o da torre; cadran, o relógio de sol; clepsydre (lindíssima palavra!), o de água e sablier, o de areia.

 

Então, os diversos tipos de relógios desempenham entre os alemães exatamente o mesmo papel que entre os franceses, porém a concepção linguística é diferente, não apenas foneticamente como, também, pelo conteúdo, quer funcional, quer estético.

 

Se tais diferenças já se manifestam em objetos concretos e singelos, o que ocorrerá naqueles voláteis e complexos conceitos que expressam a mais alta elaboração do pensamento humano, tais como o bem, o mal, a liberdade, os direitos individuais, a vida e todos os juízos de valor no seu mais amplo sentido? Pois bem: a comunidade idiomática se funda sobre a posse comum e consensual de um grande número de tais concepções e interpretações. E, precisamente porque essa concordância é sentida como natural e não como algo especial, os povos se unem mais fortemente pela comunidade idiomática do que por um discurso ideológico de qualquer origem.

 

Muito se tem realçado o desaparecimento de etnias, de espécies animais, vegetais e de paisagens, mas pouca ou nenhuma atenção tem se dado às perdas linguísticas e ao papel essencial desempenhado pelos idiomas nas suas respectivas culturas. Para George Steiner, se os funerais linguísticos continuarem com a frequência atual, os seis mil idiomas hoje existentes, dentro de um a dois séculos serão reduzidos somente a uma centena ou menos. E, assim, perderemos um preciosíssimo acervo de nossa milenar e diversificada herança cultural que, na verdade, deu relevante contribuição para o atual estágio civilizatório.

 

A luta pela manutenção de variados idiomas e culturas talvez seja decisiva para a resistência à uniformização totalitária, não apenas linguística. Mas de estilos de vida, de condutas étnicas, de sensos estéticos e, enfim, da liberdade de expressão e de pensamento.

 

Fonte: Correio do Povo/CS/Franklin Cunha/Médico, membro da Academia Rio-Grandense de Letras em 30/03/2019.