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Entrevista com a Ativista Kenia Maria
Entrevista com a Ativista Kenia Maria

A PRÓXIMA GERAÇÃO SERÁ MENOS TOLERANTE COM O RACISMO

 

A defensora da ONU Mulheres Negras Kenia Maria será (foi) homenageada em setembro, em Nova York, no prêmio que elege os Cem Negros Mais Influentes do Mundo.

 

Um dia, a filha da ativista carioca Kenia maria sentiu necessidade de se ver mais representada nas telas como uma adolescente negra no Brasil. A resposta da Defensora da ONU Mulheres Negras foi criar um canal no YouTube em que Gabriela e quem mais vive as mesmas questões na pele pudesse se identificar.

 

Aos 41 anos, Kenia tem uma trajetória de mais de duas décadas como uma voz atuante no combate ao racismo e ao machismo: nascida no subúrbio, foi integrante de um dos primeiros blocos afro do Rio de Janeiro, o Òrúnmilá, atuou no Afroreggae e ainda aos 18 começou a trabalhar na comunidade com meninas vítimas de violência. Mais recentemente, integrou o time de colaboradores do Criança Esperança 2018, da Rede Globo, e lançou uma série de livros infantis para lembrar que há uma lei, ainda pouco cumprida, que torna obrigatório o ensino da história e da cultura afrobrasileira e africana na escola.

 

Todos esses caminhos a levarão a Nova York, em setembro, onde será homenageada na celebração dos Cem Negros Mais Influentes do Mundo, apontados pelo Most Influential People of African Descent (Mipad). Ela estará ao lado de nomes como Chadwick Boseman, a estrela do filme PANTERA NEGRA, a duquesa Meghan Markle e o ator Donald Glover – e do marido, o ator e conselheiro da ONU Érico Brás, que também integra a seleta lista.

 

 

Como é ser uma porta-voz em um momento em que as mulheres estão no centro de tantos debates?

O meu trabalho é muito focado na década do afrodescendente e no apoio à Agenda 2030, com a qual a ONU Mulheres está supercomprometida por meio do lançamento da iniciativa global “Por um planeta 50-50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gênero”. Tive a oportunidade de conhecer lideranças feministas e acompanhei alguns debates promovidos pela ONU em Brasília. É necessário combater o racismo e o machismo na base, e a base somos nós. É uma grande responsabilidade estar neste lugar. Para entender melhor a minha posição nessa luta, lembro de Luiza Bairros (gaúcha que atuou como ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil entre 2011 e 2014), (da vereadora carioca feminista assassinada neste ano) Marielle Franco, (da antropóloga feminista mineira Lélia Gonzalez, (da cantora carioca) Elza Soares e de quando começou toda essa organização política protagonizada por mulheres negras. A base da pirâmide social começa a se mover, e equidade de gênero será uma exigência inegociável da próxima geração de mulheres no Brasil.

 

 

Qual o papel do homem na igualdade de gênero?

Rever privilégios. Os homens precisam entender que equidade de gênero é o único caminho para combater a desigualdade e garantir o crescimento socioeconômico de uma sociedade.

 

 

Você é mãe de um casal de filhos. Quais os desafios de educar um menino e uma menina hoje?

Se estamos debatendo com a sociedade, denunciando machismo e sexismo como forma de opressão, reivindicando por salário igual ao do homem, exigindo representatividade na política, é preciso também exercitar a educação sem distinção de gênero ou seria contraditório criar minha filha pra ser mocinha e meu filho para ser um grande homem. Não é possível. Já percebemos que não deu certo. O homem não pode continuar ensinando o filho a ser “macho”, é necessário aprender a ser gente. Em relação à criação dos meus filhos, ainda preciso levar em conta a questão racial. Meus filhos são adolescentes negros. Não é a mesma coisa. Rapazes da idade do meu filho são alvo de violência motivada pelo racismo. Nós vivemos, sim, em um país onde as pessoas mudam a calçada e fecham os vidros dos carros quando veem um menino negro. Nós vivemos em um país onde a violência contra a mulher negra aumentou quase 55% nos últimos anos. Não é só uma questão de gênero, é mais complexo.

 

 

Você criou o canal de YouTube TÁ BOM PRA VOCÊ? A pedido de sua filha para debater questões que ela, como adolescente negra, vivia no dia a dia. Como tem sido essa experiência?

Criei o canal, em 2013, com a Gabriela, para falar sobre o que ela estava vivendo como adolescente negra. Era um desejo dela. Acho que, em 2012, o ódio racial chegou com muita pressão nas redes sociais, e ela assistiu a tudo isso. Viu também o nascimento do PORTA DOS FUNDOS e do (canal do) Felipe Neto, mas aqueles temas, embora interessantes, ainda não conversam com um adolescente negro. Sugeri que falássemos sobre a publicidade. Começamos a palestrar em universidades e escolas. Percebemos a necessidade de falar sobre o assunto quando recebemos elogios de professores que diziam usar nossos vídeos como material didático em suas aulas. A webserie tem como ideia provocar um debate sobre ausência do negro nos mercados publicitário e no audiovisual.

 

 

Vocês já debateram, com humor, como os negros não costumam ser retratados em propaganda de famílias felizes, como no episódio Margaria Black, ou de nunca serem considerados como possíveis donos de uma casa grande, bonita. Que temas mais tocaram você?

O TÁ BOM PRA VOCÊ? É realmente um retrato da vida real de uma família negra de classe média. No caso da Margarina Black, o intuito é dizer que nós existimos, nos amamos, somos felizes e lindos.

 

 

E a polêmica do comercial de O Boticário? Eles escalaram atores negros para representar uma família feliz e foram alvo de reações negativas nas redes sociais.

Brasil mostra sua cara” define. O Brasil planejou tudo isso e obteve sucesso no resultado. Só que agora existe rede social e uma comunidade negra de 110 milhões de pessoas que não estão dispostas a se calar e já se começa a identificar, mesmo que timidamente, o quanto o racismo e a desigualdade caminham juntos. Esse movimento ai da é tímido, mas a próxima geração será bem menos tolerante com o racismo. Então, alçaremos uma possível democracia.

 

 

A representatividade de mulheres negras está maior hoje na mídia. Temas como a valorização do cabelo crespo têm ganhado mais espaço e visibilidade. Se pensarmos na Kenia pequena, passando para a Gabriela criança e os dias atuais, o que você tem visto de mudança efetiva e para onde caminhamos?

A “geração Lélia Gonzalez” lutou para que eu estivesse aqui hoje. A próxima geração é (feminista e ativista paulista) Djamila Ribeiro, (o rapper e poeta paulista) Rincon Sapiência e (a escritora mineira) Conceição Evaristo, na Academia Brasileira de Letras. Acho que vamos sair da importante e necessária fase #lacração para #poderparaopovopreto.

 

 

Seu livro FLECHINHA, O PRÍNCIPE DA FLORESTA, narra de forma lúdica, a história de um Orixá. Que reflexões você quer promover contado essa história?

FLECHINHA fala de adoção, ecologia, diversidade e amor, mostrando que humanos e natureza são absolutamente a mesma coisa. Portanto, cuidar da natureza/humanidade é uma questão de sobrevivência. Convido todas as crianças a conhecerem Rainhas e Reis que a nossa imaginação não consegue enxergar para que possamos juntos preservar a natureza de cada ser e assim aprender a admirar as diferenças. A ideia da coleção é falar de ecologia, candomblé é ecologia, orixá é natureza. Além disso, chamar atenção para a lei 10.639/03, antirracista, que tornou obrigatório o ensino da cultura afrobrasileira e africana em todas as escolas públicas e particulares, do Ensino Fundamental ao Ensino Médio, mas que ainda não é cumprida.

 

Fonte: Zero Hora/Revista Donna/Camila Camargo em 26/08/2018