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Cartas na Mesa
Cartas na Mesa

CARTAS NA MESA

 

A correspondência dos grandes escritores que tentaram ensinar sua arte aos novatos.

 

Ao contrário da música e da pintura, a arte da literatura nunca foi bem ensinada nas academias.   Em Lições dos Mestres, o crítico francês George Steiner observa que a “orientação didática” dos grandes escritores costuma de dar “ao acaso” – por exemplo, numa conversa de bar.  Mesmo assim, há uma tradição antiga, ainda que um tanto rarefeita, de autores que oferecem seus preceitos para a educação dos novatos.  O romancista peruano Mario Vargas Llosa se une a essa linhagem com Cartas a um Jovem Escritor (tradução de Regina Lyra; Alegro; 188 páginas) lançado no Brasil em 2006.  O título remete a Cartas a um Jovem Poeta, do poeta austríaco Rainer Maria Rilke, tido como um clássico do gênero.  A carta tem sido a forma preferida para os mestres das letras transmitirem seus conselhos.  O mais antigo representante do gênero talvez seja a Epístola aos Pisões, do poeta latino Horácio, uma carta que ficou conhecida como Ars Poetica (Arte Poética) e que forneceu, por séculos, o receituário da escola classicista.  Unidade e simplicidade eram as virtudes literárias favoritas de Horácio, mas, formulado com preceitos rígidos, seu modelo caiu em desuso pelo menos desde o romantismo.  Aliás, é assim que os conselhos dos grandes autores sobrevivem na sua melhor forma: não como mandamentos, mas como exemplos saborosos de ensaísmo literário.

Esse é o caso da correspondência do francês Gustave Flaubert, o maior testemunho da dedicação exclusiva de um escritor a seu ofício.  Especialmente reveladoras são suas cartas a Guy de Maupassant, que ele adotou como discípulo.  Conhecido pelo rigor do estilo, Flaubert exigia a mesma exatidão do aluno.  A “formatura” de Maupassant se deu quando ele apresentou ao mestre o conto Bola de Sebo.  Na carta em que Flaubert elogia essa pequena obra-prima, há uma significativa mudança do tratamento pessoal em francês – no lugar do formal vous, Flaubert passa a se endereçar a Maupassant com a intimidade do tu.  O aluno era afinal admitido no mesmo patamar do mestre.

 

 

As cartas de Rilke ao tal jovem poeta, o alemão Franz Xaver Kappus, são constrangedoras em comparação.  Rilke era um grande poeta, mas – como já dizia a Arte Poética de Horácio – até Homero às vezes “cochila”.  Cochilo é a palavra certa para definir o efeito das aborrecidas Cartas a um Jovem Poeta. Rilke recomenda a prática da solidão e o amor a Deus, mas fala pouco em poesia.  Esquivou-se de avaliar com honestidade os versos ruins de Kappus.  O jornalista inglês Christopher Hitchens, que também se valeu do título famoso em seu Cartas a um Jovem Contestador, observa que as cartas de Rilke tem a atmosfera de “inocência doentia” dos anos que precederam a I Guerra Mundial.  No Brasil, em pleno entre guerras, Mário de Andrade conservava outra forma de inocência: a crença em uma expressão literária ao mesmo tempo moderna e brasileira.  “Escrevo língua imbecil, penso ingênuo”, anunciava ele em carta a Carlos Drummond de Andrade.  Missivista compulsivo, Mário correspondeu-se com virtualmente todo o mundo literário brasileiro de seu tempo.  Mas sua importância para autores como Drummond parece mais psicológica do que literária – o reconhecimento do papa do modernismo paulista foi um incentivo fundamental para o iniciante poeta mineiro.

Diferentemente de todos esses antecessores, importunados por aprendizes de verdade, Llosa inventou um correspondente fictício e anônimo para seu Cartas a um Jovem Escritor.  A escolha da carta para dar forma a esse ensaio dá um ar tardio a um livro que aparece no momento em que a carta vai sendo desbancada pelo e-mail.  O tom sentencioso com que o autor fala da “vocação literária” intensifica esse odor de velharia.  Com exemplos que vão de Cervantes a Gabriel García Marquez, Llosa tenta definir os elementos básicos do romance:  estilo, narrador, tempo, etc.  Não ultrapassa a literatura acadêmica sobre os mesmos temas (o leitor interessado nessas minúcias técnicas terá melhor sorte com A Retórica da Ficção, do americano Wayne Booth, ou com Discurso da Narrativa, do francês Gérard Genette).  Embora cite Flaubert com imensa admiração, Llosa não consegue o grande feito do mestre francês: escrever cartas sobre a arte literária que sejam, elas mesmas, grande literatura.

 

 

CONSELHOS LITERÁRIOS

Alguns escritores que deixaram suas receitas em cartas aos aprendizes.

 

GUSTAVE FLAUBERT  (1821-1880)

Destinatário:  escritores, críticos, amantes

Conselho:  o romancista francês recomendava a aprendizes como Maupassant a busca da palavra perfeita e a dedicação total à literatura

Tem utilidade? Sim.  A correspondência do autor de Madame Bovary é o melhor documento que se conhece sobre o ofício do escritor.

 

 

RAINER MARIA RILKE  (1875-1926)

Destinatário:  Franz Xaver Kappus, um pretendente a poeta

Conselho:  o poeta de Elegias de Duíno recomenda que seu aprendiz busque a solidão e a proximidade da natureza

Tem utilidade?  Aprende-se muito pouco de poesia nas Cartas a um Jovem Poeta.  O lero-lero sobre solidão e amor funciona melhor como auto ajuda

 

MÁRIO DE ANDRADE  (1893-1945)

Destinatário:  praticamente todo brasileiro que escrevia nos anos 30 e 40

Conselho:  defendia uma arte moderna bem brasileirinha – que ele praticava em grafias canhestras como “milhor” (melhor)

Tem utilidade?  Mário ajudou um poeta como Carlos Drummond de Andrade a deslanchar – mas seu pensamento e estilo já não passam de curiosidades de época

 

MARIO VARGAS LLOSA  (1936)

Destinatário:  um correspondente fictício

Conselho:  o escritor peruano tenta ensinar os elementos básicos da construção de um romance – estilo, narrador, tempo, etc.

Tem utilidade?  Pouca.  O autor não chega a dizer nada de novo – dezenas de críticos e teóricos já trataram do mesmo tema.

 

Fonte:  Revista Veja/Jerônimo Teixeira