Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
9





                                              

                            

 

 

 


Sexo na Literatura do Mundo Antigo
Sexo na Literatura do Mundo Antigo

SEXO NA LITERATURA DO MUNDO ANTIGO

 

Desde a antiguidade a arte se interessa por sexo. Desde sempre isso causa polêmica, conflito e interdições. Na era das redes sociais, os combates entre estética, moral, ética e ousadia artística continuam.

 

Por Donaldo Schüler

Professor, tradutor, autor do livro “Joyce era Louco?” (Ateliê Editorial, 2017)

 

O rapto de Helena funda a literatura grega, episódio que não sai da memória ocidental. Raptor? Páris. A bem da verdade, não houve rapto, houve sedução. Menelau hospedou Páris e foi cuidar dos seus negócios; quando voltou, Helena tinha sumido, o hóspede também.

 

Nos versos do FAUSTO de Goethe, Helena fulgura como símbolo intemporal do feminino e da beleza. Kazantzákis retoma o episódio; na reelaboração do épico do século XX, Odisseu, em sua segunda viagem, descobre Helena escondida no Egito, o aventureiro apropria-se dela e a entrega em Creta a um homem jardineiro. A mulher disputada por nobres, admirada por burgueses, migra à classe operária.

 

Como se vê, conflitos sexuais nascem e morrem enredados em interesses políticos. O sedutor de Helena foi príncipe, filho do rei de Tróia, a paixão amorosa incendiou paixões bélicas. Com o Menelau ofendido solidarizaram-se muitos soldados gregos, a vontade de recuperar a rainha provocou uma guerra de dez anos. Na ILÍADA, epopeia que perpetuou a aventura, discute-se a legitimidade de tanto sacrifício. Um duelo entre marido e sedutor não teria poupado o sangue de dezenas de milhares? Houve duelo, mas Páris fugiu, a guerra continuou até Tróia virar cinza.

 

A briga que envolveu céus e terra foi erótico-político-religiosa. Afrodite protegia Páris, o que enfureceu Hera imortalmente (mortalmente, se Hera fosse humana). A inimizade entre Afrodite, deusa do amor, e Helena, primeira-dama, primeiríssima dama, esposa de Zeus, senhora recatada, é longa e intrincada. Refregas sexuais não dão trégua nem a deuses.

 

A questão sexual, bélica em Homero, complica-se ao longo dos séculos. Torna-se político-religioso-filosófica no grande século da democracia ateniense, o século de Péricles, o quinto antes de Cristo. As mentes mais brilhantes da Grécia (Platão, Aristófanes, Sófocles, Eurípides) discutem sexo. Aristófanes, desarvorado, chega a convocar as mulheres para uma greve de sexo a fim de acabar com a desastrosa guerra do Peloponeso. Leia-se Lisístrata! Platão, interessado em extinguir privilégios de famílias, quer que o governo cuide da procriação; na República acasalamento, parto e instrução é tarefa do Estado.

 

Embora não haja correspondente vocabular para sexo na língua grega - “sexo” deriva de secare, cortar em latim – Aristófanes, personagem de Platão no Banquete, introduz o seccionamento no debate das preferências sexuais. O comediógrafo imagina três gêneros originários: masculino, feminino e andrógino. Os três gêneros, gigantes esféricos, cortados ao meio por Zeus, assombrado pela força dos rebeldes, originaram os sexos, como os conhecemos hoje. As mulheres derivadas do gênero feminino são lésbicas, os homens derivados do gênero masculino são homossexuais, os demais, derivados do andrógino, são heterossexuais. Pela teoria de Aristófanes, a erotização, nas duas diferentes modalidades, explica-se pela origem. Pausânias, outro interlocutor, destaca a liberalidade ateniense na prática sexual, contra repressões praticadas em outros lugares.

 

Sófocles fez do sexo tragédia. O rosto ensanguentado do rei de Tebas no fim de Édipo-rei comove plateias em todo o mundo. Freud interpretou a peça para seus perturbados pacientes de Viena. O complexo de Édipo deu telenovela no Brasil.

 

A mulher ultrajada virou criminosa da pior espécie em Medeia, de Eurípedes, tragédia oferecida à plateia porto-alegrense por Luciano Alabarse, a imagem da princesa infanticida ficou gravada na memória de todos através da magistral interpretação de Sandra Dani.

 

De sentimentos eróticos falam poetas líricos, Anacreonte (570-490) com destaque. Inventa linguagem ambígua, mistura de competição esportiva (corrida de carros) e conquista amorosa. Num poema antológico, Anacreonte fala simultaneamente da potranca e da mulher, correr e atingir a meta têm sentido erótico. O poeta sublinha o caráter rebelde, sedutor, desdenhoso da amada, a eleita se esquiva no jogo da conquista, testa nas negaças o valor de quem a deseja. Sedução e fuga traçam o percurso da corrida. Em outro lugar, o sedutor, indeciso ante o masculino e o feminino misturados, exprime desejos nebulosos; sem festejar triunfo, avança e se declara rendido, o mistério ronda palavras, avanços e recuos.

 

Safo (600 a.C.) inventa a mulher combativa, reflexiva, apaixonada. Sentimentos femininos se fazem voz. O círculo de amigas a salva da solidão, afastamentos lhe doem na carne. Safo invoca Afrodite, é sua amiga, a vinda da deusa aviva aves, ares, astros, céus, perfumes, flores. Afrodite é constante no instável. Sorrisos aquietam dores, serenam tempestades. Amigas distantes provocam o nascimento de outro corpo, o da poesia, elos partidos se refazem em cadeias de ritmo e som. O verso sáfico é curto, inquieto, truncado, sofrido.

 

Calímaco (315-244), diretor da Biblioteca de Alexandria, descortina uma tempestade de conflitos homoafetivos. O poeta, um intelectual, combate arrebatamentos. De coração dividido, a parte que pensa reflete sobre a que sente. Não adianta; abandonado, o versejador vive aflito. Onde anda o fujão? Caiu nos braços de outro? Estará morto? Vem a advertência, se alguém o encontrar, tome cuidado, o infame não é de confiança.

 

O atormentado guardador de livros pede socorro à sábia orientação do hedonismo epicureu. Evitem-se excessos. O prazer desmedido fere o equilíbrio, perturba momentos de alegria. Não se culpem forças ocultas por extravagâncias. Para controlar calores físicos, evitem-se abraços.

 

Saltemos de turbulências afetivas às páginas serenas de um romance de Longo, Dáfnis e Cloé. Estamos no quinto século da era cristã. Brisas, ondas, luz e cores acariciam um casal jovem. Dáfnis e Cloé procuram a gruta das ninfas para um banho purificador. O corpo iluminado do companheiro encanta Cloé, ela experimenta na ponta dos dedos a pele sedosa, o amor fervilha sem a mediação de palavras, a flauta de Dáfnis aquece-lhe o peito, o amor sensibiliza-lhe os lábios, discurso é o da melodia, dos dedos, dos lábios. Cloé só deseja Dáfnis, procura-o com os olhos, Dáfnis é o assunto de suas conversas.

 

Lecionar já era difícil no quarto século da era cristã, Paladas de Alexandria que o diga. Paladas era professor de letras, discorria sobre a fúria de Aquiles enquanto travava batalhas com a mulher que lhe infernizava a vida. Paladas ria-se da arte de ensinar, declarou que um gramático teve como neto um rebento masculino, feminino e neutro; sem outra razão para viver, o ilustre corretor de textos raptava mulheres a exemplo de Páris.

 

Fonte: Correio do Povo/Caderno de Sábado em 09/12/2017