Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese




ONLINE
10





                                              

                            

 

 

 


Madame Bovary, de Flaubert.
Madame Bovary, de Flaubert.

MADAME BOVARY, DE FLAUBERT.

 

A permanência do romance MADAME BOVARY nas bibliotecas atuais comprova o fato de que algumas obras literárias impõem-se ao tempo pela qualidade artística.  A história da mulher que enfrenta o mundo masculino para ultrapassar suas contingências sociais e de sexo não perde a atualidade.  É admirável o modo como Emma procede para satisfazer seus anseios: ela mente, trapaceia, rouba, trai o marido, deixa-se humilhar, despreza ou adula pessoas para ampliar seu espaço na sociedade estratificada do interior da França no século XIX.  Emma luta contra a estreiteza do ser que lhe coube.

Se o leitor de hoje tiver alguma curiosidade pelo romance, poderá deliciar-se com pequenas emoções, paixões, audácias, sentimentos, perdas, desvalimentos e mesmo tragédias que se repetem e se repetirão sempre no dia a dia das pessoas comuns.  Encontrará também nas personagens a representação literária de temperamentos e singularidades que somente um grande escritor é capaz de expressar através da linguagem e assim criar um mundo novo de múltiplas vozes e múltiplas visões.

 

 

Artista da palavra, sua concepção de enredo, linguagem, tempo social e personagens transcende à época.  Flaubert inovou o romance romântico e criou um realismo próprio ao narrar, com objetividade fotográfica, o que se vê de fora e também o que se passa com as personagens em ações e circunstâncias múltiplas.  Ele examina os sentimentos no amplo espectro que vai do ridículo e do medíocre ao desespero, à paixão e ao confronto com a morte.  Suas personagens não são idealizadas, mas seres capazes de egoísmos, ultrajes, infâmias, amores e desprendimentos.  O escritor assume um ponto de vista narrativo neutro, sem intrometer-se no relato.  De modo competente, ele desvela o interior das personagens sem apelar para o intimismo confessional ou o sentimentalismo fácil.  Flaubert compõe personagens e cenas por oposição, obrigando o leitor a investir competência, discernimento intelectual e sensibilidade para que a arte do texto alcance sua finalidade estética.  Ao adentrar o ambiente rarefeito das cidades provincianas francesas, como Yonville, Toestes e mesmo Rouen, o leitor apreende, pela metáfora, o repúdio de Emma à estreiteza e à mediocridade, justificando seu desejo de transcendência.  Além da hábil descrição da vida no interior da França novecentista, o livro é um exemplo impecável do estilo narrativo realista, primando pela exatidão das palavras:  “le juste mot”.

 

 

Sem dúvida, MADAME BOVARY deve ser lido por sua capacidade de emocionar e atrair.  O que muda ao longo do tempo são as leituras críticas que dele são feiras e o modo como os leitores o apreciam.  O sucesso inicial do romance decorreu do escândalo provocado pelo processo movido contra o escritor por abordar, no livro, um caso de adultério.  A defesa de Flaubert, ironicamente genial, fundamentou-se no castigo doloroso de Emma, que morre de modo lento e sofrido após a ingestão de arsênico.  Acredito que a permanência do romance nas bibliotecas dos leitores de hoje deva-se à qualidade da linguagem e à capacidade de expressão do desejo, o impulso de mudança, o amor passional e a luta corajosa de Emma pelo espaço ilimitado, mesmo quando resulta em fracasso pessoal.

 

 

Mário Vargas Llosa, no livro ORGIA PERPÉTUA, resgata, em um primeiro momento, a personificação de Emma e a paixão que nele despertou quando a conheceu em noites solitárias vividas em um quarto de estudante, em Paris.  Deslumbrado com a mulher que agia movida pelo desejo, Vargas Llosa reconhece que  “o sexo está na base de tudo o que acontece; é, juntamente com o dinheiro, a chave dos conflitos e a vida sexual e a econômica confundem-se em uma trama tão íntima que não se pode entender uma sem a outra.”

Flaubert explora à perfeição a verossimilhança narrativa, mantendo a coerência do texto, e sempre atento à verossimilhança externa:  Emma Bovary tenta sobreviver em um mundo masculino mediante estratégias femininas.  Charles, o marido simplório; León, o namorado romântico e frágil; Rodolphe, o amante aristocrata e volúvel são os instrumentos que lhe parecem acessíveis para ingressar em um mundo cujo centro ela descobre no baile do Marquês de D’Andervillier.  Enquanto dança com a nobreza provinciana, ela vê os rostos desfigurados dos camponeses através dos vitrais da sala.  A lembrança de sua origem marca a tomada de consciência da personagem que, a partir de então, inicia a busca do sonho inatingível, resumindo em beleza, riqueza e paixão.  Sua vida se transforma, ela mente, trai, rouba, endivida-se, abandona a filha, trapaceia, avilta-se e, desiludida e infeliz, se mata.  A moral francesa em débâcle.  Flaubert sabe que a literatura é arte e busca a exatidão da linguagem.  A dimensão dos sonhos de Emma, indiciada pelas imagens de mar, barco, conchas marinhas, tem sua representação mais expressiva de espaço infinito em Paris, a capital do mundo no século XIX.  Todo o percurso da heroína pode ser lido como o grito de um afogado, a necessidade de ar para viver:  ela ansiava por amor feito uma carpa pelo ar quando deixada sobre a mesa da cozinha, diz Rodolphe Boulanger.

 

 

No romance, além das personagens inesquecíveis, como o farmacêutico Hommais, Hypolitte, o pequeno Justin, as burguesas e as criadas, destacam-se cenas antológicas, como a de Charles na escola, o boné lançado de mão em mão, “ridiculus sum”; o casamento na granja dos Rouault; o capítulo dos comícios agrícolas; a famosa cena da carruagem, com Emma e Léon a dar voltas em torno da catedral de Rouen; o desespero de Emma que não consegue auxílio financeiro para pagar o agiota Lhereux e, assim, evitar a humilhação e o ultraje.  E a descrição final, quase naturalista, de sua morte.

Flaubert avança quando prolonga o livro para além de Emma.  Ele examina as consequências da trajetória de sua heroína e descreve a solidão de Charles e a sorte da pequena Berthe.  O epílogo melancólico marca o início de novos tempos, mesmo acentuando o ranço moralista que os advogados do escritor bem aproveitaram quando do famoso processo.

 

Fonte:  Correio do Povo – CS Caderno de Sábado/Lea Masina (Professora de Literatura, doutora em Literatura Comparada e Crítica Literária) em 31 de outubro de 2015.