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Eu Me Possuo, de Stella Florence
Eu Me Possuo, de Stella Florence

LIVRE DA CULPA

 

POR MEIO DA FICÇÃO, AUTORA DE “EU ME POSSUO” ESPERA CONFORTAR VÍTIMAS E DEBATER O TEMA DO ESTUPRO.

 

Assim que a escritora Martha Medeiros terminou de ler o livro novo da amiga Stella Florence surgiu a ideia:  entrevistar a escritora para divulgar ao seu público a obra em questão.  EU ME POSSUO, da editora Panda Books, trata de forma delicada um tema terrível, o estupro.

 

Stella tem “uma filha, 10 livros, 30 tatuagens e 25 mil seguidores no Facebook”, como ela mesma se apresenta.  É autora de HOJE ACORDEI GORDA, O DIABO QUE TE CARREGUE!, 32 e OS INDECENTES, entre outros títulos.  Neste romance, apresenta Karina, uma mulher tímida que troca a profissão de dentista pela aventura de abrir um bar e acaba reencontrando um antigo amor.  Detalhe: o homem a havia estuprado anos antes.

 

A escritora inspirou-se na própria história: como conta a seguir, Stella foi vítima de violência sexual no passado.  Mais de uma vez.  Somou essas dolorosas experiências às confissões de outras mulheres e assim deu forma à ficção EU ME POSSUO.

 

ENTREVISTA COM STELLA FLORENCE por Martha Medeiros

 

Quando surgiu a ideia de escrever o livro?  Ele está sendo lançado num momento muito apropriado, em que se discute a cultura do estupro.  Foi coincidência?

A ideia de criar um romance sobre o assunto surgiu por eu ter passado por duas tentativas de estupro (uma com canivete e outra com arma de fogo) e dois estupros (um praticado por um ficante e o outro por um amigo, que me dopou).  EU ME POSSUO sair justamente agora foi coincidência: ele já estava pronto no fim do ano passado e obedeceu ao cronograma da Panda Books.  Há um lado produtivo nessas tragédias que vieram a público recentemente: envolver a sociedade na discussão para que possamos começar a desmontar a cultura do estupro.

 

EU ME POSSUO é um título que abrange mais do que o corpo.  Abrange o quê?

Isso mesmo!  O título se refere a todos os aspectos da vida da mulher, ao seu direito de autonomia e decisão em todas as áreas.  É uma frase pra grudar na geladeira, pra fazer bottom, camiseta, hashtag... (risos)

 

No livro há uma conversa muito importante entre o estuprador e a vítima.  Você deu a ele o direito de defesa.  Foi a maneira que encontrou de desconstruí-la?

Sim, eu quis desconstruir todas as desculpas, os argumentos, as justificativas do estuprador.  Também quis trabalhar a mistura dos sentimentos quando o estuprador é um homem por quem você foi (ou é) apaixonada.

 

Houve preocupação em não chocar?  Você conseguiu narrar a cena do estupro com surpreendente elegância literária.  A passagem é rápida e parece que houve um cuidado em não tornar a cena sensacionalista.

Os capítulos do romance são quase todos curtos e mantive o mesmo estilo na cena do estupro.  Talvez seja uma espécie de delicadeza minha para com a personagem: eu conto o que é suficiente para sentirmos a dor da Karina naquele momento, nada além.

 

Dois filmes são citados no livro: UM BONDE CHAMADO DESEJO e BLADE RUNNER.  A frase: “É doloroso viver com medo”, deste último, define de certa forma seu livro?

Define o sentimento que toda mulher experimenta, afinal nós obedecemos a um eterno toque de recolher e tomamos precauções constantes que os homens nem supõem.  Mas não define o livro porque ele é focado na reconstrução e não no medo.  Gosto de usar elementos da cultura pop e da literatura dentro dos meus livros.  UM BONDE CHAMADO DESEJO é uma das minhas obsessões, eu sempre o cito, além de haver (na peça e no filme) o estupro de Blanche Dubois.  Quanto a BLADE RUNNER, eu cresci vendo Harrison Ford transando com Sean Young com um sax romântico ao fundo e achando aquilo lindo.  Quando fui vê-lo de novo levei um susto: aquilo não é sexo, é estupro!  É uma das infinitas materializações da cultura do estupro que naturaliza a violência contra a mulher.

 

Muitas meninas acabam se deixando abusar por uma questão que você alerta no livro: elas acreditam que seu medo pode ofender o homem.  Como reverter essa hierarquia paralisante?

Nesses momentos, a mulher pode pensar “Não quero ofendê-lo dizendo que isso está rude demais” ou então “Se eu reagir, vou sair mais ferida”.  Para reverter esse silêncio, é preciso lutar por uma sociedade em que qualquer mulher possa dizer “Eu não quero” e ser plenamente respeitada.  Há muito trabalho a fazer.

 

Sua protagonista se relaciona com vários homens e a maioria deles traz algo de positivo, como Caio e Lúcio.  Você quis montar um cenário mais amplo da masculinidade

Sim, não quis pautar todos os homens por Gustavo Jota, o estuprador (e mesmo nele eu criei várias camadas, para torná-lo mais real).  Por isso, há vários homens de diferentes quilates no livro.  E há muito sexo também – sexo do bom, não estupro.

 

Qual a sua expectativa para a recepção do livro?

Eu espero que as mulheres (e homens) que foram estupradas sintam que não tiveram culpa e que podem se levantar e sair do espaço emocional de imobilidade e dor em que se encontram.  Eu quero que elas caminhem – e que o livro as ampare em ao menos um passo dessa jornada.

 

 

Fonte:  Revista Donna ZH em 24 de julho de 2016.