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Pensando um País - Parte 7/Cerne da Nacionalidade
Pensando um País - Parte 7/Cerne da Nacionalidade

PENSANDO UM PAÍS – PARTE 7

 

O CERNE DA NACIONALIDADE

 

Desde o seu lançamento, OS SERTÕES despertou polêmicas e paixões.  Das dores ainda vivas da “sangueira patriótica”, como definiu a guerra fratricida de Canudos (1896-1897), brotou a acusação de que se tratava de um livro contra o Exército, enquanto outros leitores percebiam que o tom de libelo, predominante no texto, resultava da indignação moral de Euclides da Cunha (1866-1909) que, em contato direto com os acontecimentos, vira desfazerem-se suas ilusões a respeito da legitimidade da ação militar contra os pobres sertanejos, fanatizados pela liderança messiânica do Conselheiro.  Contudo, já nos anos 20, os tenentes tinham se apossado da obra como uma incontornável radiografia do país e, a partir daí, as elites políticas e militares tomaram-na como referência obrigatória para o debate estratégico sobre o futuro da nação.

 

 

Correspondente de guerra de O Estado de S. Paulo, o ex-oficial do Exército Euclides da Cunha havia sido criado dentro da mística jacobina dos republicanos (a esquerda da época) e estava seguro, a exemplo da maioria dos brasileiros, de que Canudos constituía um ameaçador levante monarquista.  Era impossível imaginar camponeses analfabetos destruindo três expedições militares tarimbadas, sem o comando de agentes estrangeiros.  As lembranças das recentes Revolta Federalista e Revolta da Armada ainda estavam vivas na memória coletiva, e a consolidação da República parecia exigir mais e mais sangue.

A ótica oficialista, sobrecarregada de ideologia, não resistiu por muito tempo às observações dolorosas de Euclides sobre a pobreza e o inusitado do cenário; sobre a assombrosa disposição dos defensores de Canudos ao martírio; sobre a tenaz resistência da “urbs monstruosa” – essa “Jerusalém de taipa”, logo transformada em “Troia de taipa”; sobre a guerrilha sertaneja, sua mobilidade, sua forma de luta não convencional; sobre a religiosidade intensa e mágica (“a tutela do sobrenatural”), que se manifestava em louvações, rezas e cânticos emergindo nos crepúsculos do arraial bombardeado, quando todo o Alto-Comando já o julgava vencido.

 

 

Euclides não pode assistir à rendição de Canudos, ao assassinato de seus últimos defensores, à exumação do cadáver do Conselheiro, ao incêndio do arraial com tochas de querosene.  Acessos de febre haviam-no feito voltar à capital baiana dois dias antes do fim do confronto.  Retornando ao Sul, tenta entender o que presenciara em Canudos.  Já não mais acredita ter participado de um combate santo pela salvação da República, um conflito entre reacionários e progressistas.  Sabe agora que assistira apenas a um  conjunto de equívocos, demências e crueldades, uma pungente guerra civil, uma tragédia de erros, resultante da absurda cegueira de ambos os lados.

Recompor o peso da razão, eis o projeto da escrita de Euclides.  Os sertanejos podiam ser retrógrados, mas não degenerados.  Eram apenas uns pobres-diabos, filhos da ignorância e da crendice de uma civilização parada no tempo.  Já as tropas do governo – representantes da face moderna do país – haviam sido incapazes de perceber a natureza real dos “inimigos”, resumindo-se a destruí-los a ferro e fogo, com requintes de barbárie.  Daí o caráter de denúncia que impregna Os Sertões:  “Aquela campanha (...) foi, na significação integral da palavra, um crime.  Denunciemo-lo.”

Ao descrer do fervor patriótico que envolveu a nação depois da vitória final do Exército, o escritor tem a revelação de que aquela epopeia às avessas era a representação dramática da divisão estrutural do país.  Perplexo, dá-se conta que o Brasil não tinha uma configuração homogênea, uma identidade geográfica, social e cultural, e, muito menos, um projeto comum de futuro.  Eram dois Brasis, completamente opostos e estranhos entre si, o do litoral e o do sertão.  Duas sociedades separadas pela História.  A primeira, mais ou menos desenvolvida, mais ou menos integrada ao ritmo, aos princípios, às instituições, às formas de ser e de entender a vida, próprias do processo civilizatório forjado pelo Iluminismo.  A segunda, agrária, isolada no amplo interior, presa à ordenação mítica dos conquistadores ibéricos, coagulada em um tempo histórico já morto.  Por isso, os soldados no front sentiam-se em terra estranha (“Invadia-os o sentimento exato de seguirem para uma guerra externa.  Sentiam-se fora do Brasil”.)

Euclides descobrira a especialidade arcaica do grande sertão e simultaneamente passava a compreender que os sertanejos constituíam o “cerne rijo da nacionalidade” e que, portanto, era preciso integrá-los, assimilá-los, educa-los.  Em vez de canhões, o governo devia ter enviado professores.  Só por maio das luzes do progresso, isto é, pela implementação de valores modernos, os dois Brasis poderiam se aproximar e se integrar pacificamente, com a consequente eliminação de todas as espécies de arcaísmo, misticismo e atraso, ainda imperante nos infinitos confins do país.

Durante expressiva parte do século 20 (pelo menos de 1930 a 1980) – a partir de OS SERTÕES e do projeto implícito que ele continha – as elites nacionais procurarão unificar a nação, sob a hegemonia de um Estado forte, centralizador, apto a criar vias comunicantes entre dois mundos aparentemente irreconciliáveis, separados pela distância geográfica e por seculares diferenças no plano dos costumes e das mentalidades.

 

Fonte:  ZeroHora/Sergius Gonzaga (Professor de Literatura Brasileira na UFRGS) em 06/09/2015