
REDE SOCIAL NÃO É DESCANSO, É CEDER AUTONOMIA AO ALGORITMO QUE MOLDA NOSSA VIDA, DIZ ESCRITOR
Em entrevista ao ‘Estadão’, o ativista americano Peter Schmidt afirma que as redes sociais são uma forma de extorquir as pessoas e moldar seus desejos, e defende que a solução para a crise de atenção passa por ações coletivas
Peter Schmidt critica redes sociais: 'Único propósito é fazer dinheiro a partir de nossa atenção'
Você já deve ter sentido que está perdendo a capacidade de dar atenção à sua vida em detrimento do foco no celular. Talvez até já tenha se perguntado se tem algo de errado com você. Esse não é um sentimento individual, trata-se de um problema coletivo. Essa é a tese defendida pela organização internacional sem fins lucrativos Friends of Attention (Amigos da Atenção), que lançou neste ano o livro Attensity! A Manifesto of the Attention Liberation Movement, ainda não publicado no Brasil.
Em conversa com o Estadão, um dos autores do livro, Peter Schimdt, critica como empresas de tecnologia e redes sociais competem constantemente para capturar nossa atenção com notificações, algoritmos e feeds infinitos — tudo para transformá-la em dados e lucrar, principalmente por meio de publicidades. É a chamada “economia da atenção”, que se constrói por meio de um processo descrito na obra como “human fracking” — uma metáfora comparando a exploração da atenção humana à extração agressiva de recursos naturais.
“Vivemos em uma monocultura de atenção”, diz Schmidt, que esteve no País a convite da ONG internacional de direitos humanos Artigo 19. “Toda experiencia humana está sendo moldada pelas mídias sociais. A desinformação está por toda parte. E até mesmo a informação válida é divulgada para nos irritar em vez de nos informar.”
Nesse “braço de ferro” entre as pessoas e as big techs, os indivíduos são sempre o elo mais fraco, argumenta o autor. “A pessoa vai perder, não é questão disciplina individual. É insuperável. A única maneira de resistir é por meio de um movimento popular, e esse movimento já existe, chama-se ativismo de atenção”, diz.
Eles não são contra a tecnologia, mas ao modelo de negócio “que converte pessoas em dinheiro por meio da exploração da atenção” e que, estrategicamente, importou formas de medir a atenção de laboratórios militares, afirma Schmidt.
O livro não faz apenas uma crítica; é um manifesto que propõe a recuperação do controle coletivo sobre a atenção ao tratá-la como um bem comum da sociedade, não como um recurso comercial. Para isso, sugere a criação de espaços livres de distrações digitais, o incentivo a atividades que exigem presença e concentração e a valorização de experiências culturais e coletivas, como teatro, dança e encontros com amigos.
Uma das principais propostas do manifesto é a criação dos “santuários de atenção”, espaços “protegidos da lógica corrosiva da economia da atenção” onde as pessoas decidem ativa e voluntariamente compartilhar a atenção entre aqueles que estão presentes. Pode ser uma igreja, uma escola, um museu ou uma mesa de jantar, e não precisa ser um espaço onde os celulares são proibidos — o importante é que seja um ambiente coletivo.
Para o escritor, essa é a verdadeira forma de descanso. “(Scrolling) não é descanso, é ceder autonomia ao algoritmo", argumenta.
Na conversa, Schmidt também elogia o Brasil por não ceder a todas as pressões das grandes empresas de tecnologia e conta que foi no País, mais precisamente na Bienal do Livro de São Paulo, que nasceu o grupo Amigos da Atenção.
Veja a seguir os principais trechos da entrevista:
Muito se fala sobre as redes sociais fazerem mal às pessoas, mas nem sempre isso vem acompanhado de explicação. Quais são os prejuízos de voltar a atenção às redes, tanto individual quanto coletivamente?
As plataformas das big techs são desenhadas para nos explorar, ou seja, toda essa tecnologia é uma maneira de capturar, quebrar e monetizar a nossa atenção. Cada vez que eu dirijo minha atenção para a tecnologia, corro o risco de ter minha atenção explorada (por meio das propagandas veiculadas nas redes). Mas vale dizer que não é a tecnologia em si, é o modelo de negócios que a tecnologia serve — e essa distinção é muito importante. A consequência é que minha máquina gera em mim certo tipo de atenção que serve para monetizar as empresas, mas que não serve para mim. Não serve para eu estar com outras pessoas, cuidar das pessoas que eu amo, me expressar ou realizar os processos mais complexos de fazer democracia. O problema é que esse tipo de atenção não é a experiência plena da vida humana, e nem é a atenção que se usa para construir um mundo juntos. A gente tem que colaborar, cuidar das famílias, realizar a democracia — e isso requer muitos “tipos” de atenção. Queremos ampliar o espectro de atenção que a gente usa e criar a infraestrutura social e política para apoiar esse esforço.
A forma como a atenção é medida hoje tem origem em uma estratégia militar. Como isso é aplicado pelas big techs nas redes sociais?
A atenção que a gente dá aos dispositivos é uma forma muito estreita da atenção, ou seja, uma atenção quantitativa medida pela attention span (janela de atenção), majoritariamente orientada pela produtividade. Essa maneira de pensar a atenção como alguma coisa que poderia ser medida se originou nos laboratórios de psicologia do século XX patrocinados pelas Forças Armadas dos Estados Unidos e da Inglaterra. Eles mediram a habilidade de soldados em atirar em aviões e detectar ameaças em uma tela de radar. Por isso, a gente recebeu do passado essa maneira de pensar na atenção. E quando as big techs construíram as plataformas que agora dominam nossas vidas, usaram essa atenção para capturar e maximizar nosso tempo nas telas. É por isso que a gente passa horas do dia prestando um tipo só de atenção.
Como reduzir o tempo de atenção dedicado às redes sociais quando nós, como sociedade, vemos valor em pertencer a esses espaços, quando nos comunicamos e nos relacionamos por meio deles, criando até mesmo uma cultura nativa do digital? É como se, ao nos afastarmos desses espaços digitais, nos afastássemos das pessoas.
Nossa vida pessoal, nossa vida romântica, nossa vida política foi substituída pela infraestrutura da internet, das redes sociais. A gente trocou essa infraestrutura por uma infraestrutura muito útil, (a infraestrutura) digital. Mas o propósito dessa infraestrutura que a gente agora usa para tudo é extorquir dinheiro de nós, e isso não é um lugar habitável para a vida humana. Então, não só (precisamos) regular a tecnologia, mas também reconstruir a infraestrutura social, cultural e política com sua base na vida humana e nos valores humanos, em vez de nos valores econômicos e na vida das empresas.
Muitas pessoas alegam que dedicam tanta atenção e tempo às redes porque querem e porque isso as faz sentir bem. E, de fato, o scrolling gera picos de dopamina. É uma armadilha que criamos para nós mesmos, para nos convencermos de que “doamos” a nossa atenção voluntariamente, em vez de tê-la roubada?
As plataformas são poderosas porque cooptam o desejo. O grande desafio do momento é querer o que eu quero querer. Porque o desejo é sistêmico, é estrutural. E a gente mora numa estrutura majoritariamente construída para impulsionar desejos que não nutrem a nossa vida. Então a gente tem que se distanciar um pouquinho e se questionar: ‘o que eu quero querer?’. Cada pessoa tem seu desejo, o desejo é a força mais poderosa na política. E se a gente não reclamar nosso desejo do sistema, a gente não pode se mobilizar.
Nossa vida pessoal, nossa vida romântica, nossa vida política foi substituída pela infraestrutura da internet, das redes sociais. Mas o propósito dessa infraestrutura é extorquir dinheiro de nós, e isso não é um lugar habitável para a vida humana
Peter Schmidt, escritor e ativista americano
Você fala da estrutura das big techs para roubar nossa atenção e lucrar em cima dela, e que lutar contra isso não é uma questão de força de vontade pessoal porque a batalha é desigual. Se não é um problema individual, a solução também deveria ser coletiva, ou seja, por meio de políticas públicas?
Na verdade, a gente não tem propostas de políticas públicas. Mas, para ter uma política que protege a atenção, precisa haver uma cultura que valorize a atenção. É preciso construir isso antes de poder imaginar uma política. Há outros grupos que têm muitas propostas de políticas. Queremos unir todas as pessoas com essas ideias. E, além disso, acreditamos que a natureza da política está mudando, porque nossa política agora é poderosamente deformada pela captura de atenção. Por isso fizemos uma escola, porque uma escola é um lugar para fazer essas perguntas e tentar entender como construir o mundo que queremos.
Então, para vocês, a solução desse problema passa mais por uma mudança cultural do que queremos enquanto sociedade do que, necessariamente, por políticas públicas?
Precisamos de tudo. Nosso grupo é um grupo de artistas. Então, o que a gente faz é convidar as pessoas que pensam a política, que pensam a ciência, que pensam a cultura. A gente tem que convidar, se unir e falar, e experimentar.
Na prática, como fazem para dedicar mais atenção à “vida real” do que à tecnologia? Vocês pregam os “santuários de atenção” como uma saída. O que são e como construir esses “santuários”?
É muito simples. É um espaço onde as pessoas concordam e compartilham a atenção. Ou seja, um espaço protegido da lógica corrosiva da economia da atenção. Pode ser um espaço sem dispositivos, sem tecnologia, mas isso só é a metade da questão. Pode ser uma igreja, uma escola, um museu, a mesa do jantar em família. Se a gente decidir “vamos prestar atenção entre nós”, isso vira um espaço protegido, um espaço onde a gente pode pensar, imaginar e atuar além da lógica do “human fracking”.
Existem outras ações que podemos adotar voluntariamente para não ficarmos reféns das big techs?
Unir-nos com amigos. Assim podemos nos proteger, nutrir, apoiar. Tudo começa assim. Nosso livro, nosso movimento, começou com um grupo de amigos. Então eu acredito muito no poder da amizade.
Quais são os seus santuários? Como você descansa e usa sua atenção de forma intencional?
Eu cozinho. Minha noiva e eu fazemos muitas festas com jantar. Eu amo cozinhar, acho que é uma maneira de, por meio da comida, fazer um santuário. O santuário deve ser coletivo, mas, para mim, a escrita, (apesar de) ser isolada, é um santuário que atua pelo tempo. Ou seja, eu escrevo agora para fazer um santuário para outra pessoa ler no futuro.
Você tem e usa redes sociais? Isso é ou já foi um problema para você?
Eu tinha. Não foi um problema, eu não me interessava muito. Eu não tenho agora porque não gosto muito. Mas há pessoas na escola que têm. Tem até influencers na equipe. Cada pessoa tem sua relação individual (com as redes) distinta. Mas eu manejo o Instagram da escola (@SchoolofAttention).
Como começaram o ativismo da atenção e o grupo Amigos da Atenção? O que inspirou vocês?
A ocasião foi a Bienal de São Paulo de 2018 e o contexto da eleição do (ex-presidente Jair) Bolsonaro, porque foi um evento dedicado à atenção em um momento em que as consequências da monetização da atenção na vida política ficaram muito evidentes. Então, um grupo de pessoas que já valorizavam a atenção decidiram levar esse valor ao âmbito político e pensá-lo, e pesquisar como podíamos responder ao momento. Somos um grupo de artistas, escritores, ativistas — e fomos amigos antes de sermos ativistas. Então, o nosso espírito sempre tem sido essa visão coletivista. A gente percebeu que tem que ser um movimento, tem que ser uma ação coletiva. E quando surgiu a oportunidade de fazer um livro, foi a mesma coisa, temos que fazer como grupo, como comunidade.
Em 2023, você cofundou a Escola Radical de Atenção. O que vocês fazem nessa escola?
A gente reúne os ativistas de atenção do mundo todo e faz workshops gratuitos para o público que consistem em exercícios, práticas de atenção, inspirados por intelectuais, artistas e figuras históricas, porque as tradições que herdamos podem ser entendidas como tradições de atenção. Então, arte é uma tradição de atenção. As religiões podem nos ensinar muito sobre a atenção humana e eu acho que as religiões são talvez as melhores fontes de sabedoria sobre a atenção. As escolas, as universidades, as tradições acadêmicas. Então, a gente faz workshops, seminários, pedagogia de rua, grupos de estudo que se reúnem nas cidades por uma noite. Os eventos são principalmente em Nova York, em nosso espaço, mas a gente viaja. Fizemos um workshop no Parque Lage, no Rio; na Irlanda; Espanha; Inglaterra. Oferecemos também aulas virtuais sobre as bases intelectuais do ativismo da atenção. Então, é para todo mundo.
A gente também colabora com a coalizão de educadores ao redor do mundo, principalmente nos Estados Unidos. Chama-se Educators for Attention, ou Educadores para Atenção. A ideia central dessa iniciativa é que, antes, as crianças entravam na escola com suas capacidades de atenção mais ou menos intactas, mas agora não é assim, elas têm mais informação no bolso do que na Biblioteca de Alexandria. Mas o que elas precisam é formar atenção. A gente acha que o trabalho dos professores, dos educadores, atualmente, é formar a atenção dos estudantes.
Você disse que o Brasil tem sido mais eficaz em resistir às big techs do que os Estados Unidos. Por quê?
Dá para ver que o Brasil tem protegido melhor a democracia e tem resistido, no nível federal, às big techs. A proibição do Twitter (em 2024), as imposições do Lula, a proibição do celular nas escolas — dá para ver que tem uma força política contra a influência das big techs.
A proibição do celular nas escolas e o ECA digital foram propostas que uniram esquerda e direita no Brasil. Mas há uma discussão inicial no País que tem levantado alguma polêmica: o uso desse tipo de proibição para adultos, como tem sido feito em algumas faculdades particulares. Qual a sua visão sobre isso?
Acho que pode ser útil. Cada pessoa tem que decidir. Mas dá para dizer que a proibição não é um santuário, é uma regra vertical. Um santuário é um espaço que se constrói entre as pessoas. É um processo democrático de concordar com a experiência que queremos construir. A proibição pode ser útil para a educação, mas o santuário tem que ser voluntário. Se eu entro num santuário, eu sou responsável por fazer esse santuário. Se eu estou cedendo minha autonomia às regras do espaço, é outra coisa. Pode ser útil, pode ajudar na aprendizagem, mas não é um santuário tal qual a gente imagina.
O ativismo da atenção também engloba a atenção offline? Ou seja, existem problemas atencionais na nossa sociedade que estão fora das telas?
Claro, a crise é do momento. Na história humana, as pessoas tentaram aprofundar sua atenção. Agora, estamos descobrindo de novo essa oportunidade. Há 20 anos ninguém falava sobre a atenção assim; agora está “doendo”. Por isso a gente está reconhecendo de novo que é muito importante proteger a atenção. Esse momento é uma oportunidade não só para solucionar esse problema sistêmico que é muito forte e muito poderoso, mas também para nos comprometermos com um esforço eterno de aprofundar a atenção e de ver “para que serve a vida”. Eu, às vezes, descrevo nosso trabalho como um neo-humanismo aplicado: descobrir para que serve ser humano.
Fonte: Estadão/Isabela Moya em 15/03/2026