
"O DOMÍNIO DO PORTUGUÊS É A PORTA NECESSÁRIA PARA O USO DA IA", DIZ ESPECIALISTA RONALDO LEMOS
Pesquisador aponta que apenas 10% dos brasileiros dominam plenamente o português, condição fundamental para uso eficiente da ferramenta
Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro e um dos principais pesquisadores sobre tecnologia do país, Ronaldo Lemos conversou com a coluna sobre os próximos passos da inteligência artificial (IA) e como ela pode, em países como o Brasil, ser um elemento de exclusão social.
Em texto para a Folha de São Paulo, você afirma que, quando se fala em tecnologia, o Paraguai é destaque na América Latina. O país, que já foi conhecido pelo narcotráfico e pirataria, está de fato se tornando um entreposto tecnológico muito interessante. Ao Brasil, faltou direção. Se houvesse uma lição do Paraguai para o Brasil seguir, no âmbito da tecnologia, qual você indicaria?
A lição é ter uma visão clara de onde se quer chegar. Em 2027 se encerra o Anexo C do Tratado de Itaipu e com isso o Paraguai vai dispor de quase 9 mil megawatts adicionais de energia limpa para vender. Essa energia era comprada pelo Brasil a preços módicos. Vamos perdê-la na hora que mais vamos precisar dela. Energia limpa é a ponte para a atração de data centers de inteligência artificial, algo que está sendo disputado por todos os países, incluindo a Índia, o Vietnã, a França ou a Alemanha. O Paraguai vem se preparando para esse momento há anos e construindo um ambiente regulatório claro e estável. O resultado está aí. Mesmo sendo um país diminuto perto do Brasil, atraiu agora um data center de 50 bilhões de dólares, da empresa norte-americana X8 Cloud, maior que qualquer projeto similar brasileiro. Me preocupa também o fato de que tantas empresas brasileiras estejam movendo suas plantas industriais para o Paraguai. É o caso da Lupo, da Estrela, da Vale, da JBS, da Plastibras e muitas outras. Dados do Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai falam de 223 empresas industriais brasileiras no país.
Você traça uma cronologia de uma IA respondedora para uma IA que opera por meio de agentes. Qual o próximo passo da IA?
O próximo passo imediato é a transformação de capacidades abstratas da IA em aplicações práticas. A analogia é com a invenção do motor a combustão. Quando ele surgiu, foi por muito tempo para aplicações genéricas como bombear água. Só quando surgiu o carro, isto é, colocaram o motor em uma carroceria com direção e freio, é que essa tecnologia tomou conta do mundo todo, transformando a vida humana. Com a IA estamos nesse momento. Cada vez mais a IA generativa está sendo direcionada para aplicações específicas: programar, fazer design, fazer apresentações e planilhas, gerenciar tarefas corporativas de forma autônoma e assim por diante. Isso faz com que a IA entre em uma nova fase, mudando inclusive a natureza do trabalho humano. A atividade mais importante agora não é perguntar para a IA e aguardar sua resposta. É coordenar a atividade de agentes de IA que executam tarefas de forma autônoma.
Você diz que gerir agentes é o novo MBA. Mas é muito complicado falar sobre o domínio da IA em um país com extremas desigualdades, como o Brasil. Ela vai ser elemento de exclusão social?
Vai, e essa é talvez a pergunta mais importante hoje. Os dados do INAF mostram que apenas 10% dos brasileiros entre 15 e 64 anos têm domínio pleno do português. O domínio do português é a porta necessária para o uso da IA. Você precisa escrever de forma clara, precisa interpretar o que a IA diz e ter comando da língua. Sem isso o uso da IA fica apenas na superfície, o que não é suficiente. O Brasil falho em educação justamente na hora em que também vamos mais precisar dela. A desigualdade já está aparecendo. Quem usa IA de forma proficiente está empregado e ganhando bem. Uma pesquisa recente da consultoria BCG mostrou que profissionais com alta capacidade analítica e linguística conseguem ganhos de produtividade de 30% a 40% com agentes de IA. Profissionais sem essa base têm ganhos marginais, ou nenhum. A divisão será entre quem sabe usar a tecnologia para produzir valor e quem é apenas usuário passivo dela. Mas para isso precisamos investir em capacitação e enfrentar a tragédia da alfabetização. Ignorar esse ponto é deixar a IA virar mais um vetor de exclusão.
É possível prever quando a IA vai deixar de cometer erros? De informação, por exemplo?
Provavelmente nunca. Os modelos atuais de IA são probabilísticos. Eles geram saídas que são estatisticamente coerentes com o seu treinamento. A chamada “alucinação” não é um defeito que alguém vai consertar, faz parte da forma como a IA generativa opera. O que vai mudar é a margem de erro e o ambiente em torno do erro. As taxas de alucinação estão diminuindo. E hoje o próprio modelo consegue cruzar suas respostas com bases factuais, usando o que chamamos de RAG (retrieval augmented generation). O desafio é construir um ecossistema que sabe de possibilidade constante do erro como dado e cria salvaguardas em torno disso. Em qualquer uso profissional é essencial verificar, auditar e supervisionar tudo que a IA faz.
Fonte: Zero Hora/Rodrigo Lopes em 28/06/2026