
TROCAR TRADUTORES POR IA É RETROCESSO GIGANTESCO PARA LITERATURA
Priorizar apenas a agilidade das máquinas despreza o caráter artístico da atividade
Inteligência artificial deveria ser empregada com mais cautela e indagações
Traduções literárias correm o risco de serem executadas apenas, ou majoritariamente, pelas IAs, em um cenário movido pela mentalidade mercadológica de economizar tempo e dinheiro. Até mesmo nos meios acadêmicos esses recursos são celebrados como exemplos de inovação, palavra que parece ser o mantra de nosso tempo. A agilidade das máquinas, contudo, tem nos levado a um cenário menos diverso no contato com outras culturas, com pouco entendimento sobre o que faz do trabalho de um tradutor uma forma de arte.
Ao proferir palestra em um congresso sobre tradução, em 1982, o escritor e ensaísta italiano Italo Calvino afirmou: "Traduzir é uma arte: a passagem de um texto literário, qualquer que seja seu valor, para outra língua requer a todo instante uma espécie de milagre. Todos nós sabemos que a poesia em versos é intraduzível por definição; mas a autêntica literatura, inclusive em prosa, trabalha justamente na margem intraduzível de toda a língua. O tradutor literário é aquele que se põe inteiramente em jogo para traduzir o intraduzível" (tradução de Maurício Santana Dias).
Calvino não propõe, na sua fala, uma definição de arte. Como lembrou o escritor americano Leonard Koren, em 2018: "Ninguém realmente precisa de arte. Ou pelo menos é o que alguns cínicos dizem. Assim, se os artistas quiserem que seus trabalhos sejam reconhecidos, eles precisam encontrar um jeito de tornar o valor de suas criações perceptível e convincente para os outros. Isso implica, primeiramente, que as pessoas prestem atenção e, depois, transformem essa atenção em algo duradouro" (tradução de Alice Sant’Anna).
Ambas as citações suscitam perguntas. Entre outras, quantas pessoas consideram a tradução uma arte? Quantas ainda têm tempo para prestar atenção em artefatos estéticos? Prestar atenção requer parar para apreciar e refletir sobre o que se vê/lê.
Atualmente, no universo das artes, tão importante quanto ver é ser visto. Na área da literatura, muitos influenciadores se dedicam a postar, praticamente todos os dias, os livros que estão lendo, que leram no mês, na semana, no dia anterior ou que lerão a seguir.
Se considerarmos que nesse frenesi de leitura eles mal têm tempo para percorrer a obra na totalidade, é de supor que, nos casos de autores estrangeiros, pouca atenção deem à tradução. Nem falo em analisar a tradução, mas sim em tomar o cuidado de pelo menos citar o nome do tradutor. Às vezes, eles nem parecem se dar conta de que comentam uma obra traduzida!
Mas não se pode apontar o dedo apenas para alguns influenciadores literários. Recentemente, a equipe do governo petista que elaborou o projeto MEC Livros, que oferece acesso gratuito, em formato digital, a obras da literatura nacional e mundial, tampouco levou em conta "a arte de traduzir".
No site oficial do MEC Livros não consta, nas informações que detalham os livros para o leitor, pelo menos na grande maioria dos consultados por mim, o nome do tradutor.
Citarei dois casos exemplares. "Poesia Completa", da americana Maya Angelou, parece ter sido escrita diretamente em português, pois o nome da tradutora, Lubi Prates, foi desconsiderado. Já nas informações do estojo James Joyce, com "Um Retrato do Artista Quando Jovem" e "Epifanias", o destaque é para o texto da especialista italiana Ilaria Natali, que acompanha a publicação, enquanto o nome do tradutor, Tomaz Tadeu, bastante respeitado no universo dos livros, não é mencionado.
Poderia citar muitos outros exemplos de livros sem os nomes de seus respectivos tradutores, no site oficial do programa do governo. Terá isso ocorrido porque a equipe não teve tempo para refletir sobre o papel da tradução na cultura brasileira?
Sabe-se que, na luta contra governos autoritários, xenófobos etc., a troca cultural com outras nações é algo fundamental. Nunca é demais lembrar que a tradução é uma ponte entre culturas, épocas, visões de mundo…
No recém-lançado "Anacronismos: Ensaios de Arte, Literatura e Filosofia de Exceção", Davi Pessoa, professor de língua e literatura italianas na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e tradutor prolífero, ao discorrer sobre grandes escritores da Itália que se tornaram tradutores, destaca a posição de Cesare Pavese.
Em 1932, Pavese "expressou seu desejo de enfrentar o monolinguismo da ideologia fascista e, para isso, se dispôs à escuta de uma poderosa voz multilíngue vinda da imensidão do oceano. Essa voz, porém, é um corpo, e todo corpo é habitado por muitas vozes".
O escritor italiano se lançou então na aventura de traduzir "Moby Dick", de Herman Melville, contra "o mito fascista da unidade totalizante", ou seja, ele buscou o "contato e o contágio com diversas mitologias", colocando-se à escuta do estrangeiro, "rompendo com fronteiras geográficas, políticas e culturais pretensamente determinadas pelo poder".
Pavese teria aprendido também que traduzir é "saber habitar as soleiras", não se transformar no outro, nem transformar o outro, mas permitir que a porta fique aberta para novas escutas e conversas.
A arte da tradução, por mais enigmática que seja o sentido dessa expressão, tem, assim, um papel político importante, mas parece que hoje ninguém precisa dela, e não se trata de cinismo, como afirmou Koren na citação acima, mas, antes, de absoluta impossibilidade de prestar atenção na arte em geral, qualquer que seja ela.
Hoje, já se delega às inteligências artificiais (IAs) a atividade de traduzir, restando ao antigo tradutor o papel, talvez inesperado, de revisor, uma função que já foi considerada quase extinta, mas parece cada dia mais necessária.
Toda nova tecnologia, como ninguém ignora, é uma conquista definitiva. Mas me parece que a inteligência artificial, no campo da tradução e da criação literárias, precisaria ser recebida e empregada com mais cautela. Contudo, a pressa, imposta pelo mercado, e a tendência ao "cult" impõem o seu uso sem maiores indagações e regulamentações.
No caso da tradução, mesmo nas universidades, as IAs têm sido por vezes festejadas pelos professores, por isso não espanta que o Ministério da Educação destaque, em praticamente todos os editais, a palavra "inovação", seja lá o que ela signifique. A academia talvez precise se mostrar atualizada para a sociedade e se sinta pressionada a seguir os passos ágeis de um mundo regido pelo pós-capitalismo.
Se por um lado é cult hoje falar das traduções feitas pelas IAs, por outro é espantoso o fato de que não se costuma discutir o enorme impacto ambiental de seu uso indiscriminado. Cult também é inovar sempre, trocar lâmpadas velhas por novas, mesmo que nas novas não exista gênio algum. O que importa, nesse caso, é que seja atraente para o mercado e desperte o desejo dos consumidores.
Recentemente, a Autêntica Contemporânea decidiu publicar um livro de uma autora turca, conforme foi divulgado por este jornal. A editora Rafaela Lamas optou, segundo a matéria, por uma tradução indireta, a partir do inglês, já que "não tinha relação de confiança com nenhum tradutor de turco".
Podemos fazer as seguintes perguntas: como é possível não confiar em um falante nativo como tradutor e confiar cegamente em uma tradução indireta feita com a ajuda de inteligência artificial? Por que não contratar o tradutor que conhece o idioma turco e fazê-lo trabalhar com algum outro nome mais experiente, mesmo que não saiba essa língua?
Adriana Lisboa ficou responsável pela tradução, na qual se valeu da ajuda da IA para tirar dúvidas sobre o texto original em turco. Ela também contou com o auxílio, talvez para ganhar legitimidade, do diplomata Marcus Vinícius Marinho, conhecedor da língua e da cultura da Turquia.
Quem afinal deveria assinar a tradução? Seria esse procedimento inusitado apenas uma jogada de marketing, a fim de vender a ideia de que não precisamos mais enfrentar o monolinguismo do ideário fascista?
Parece-me que, ao buscar a novidade a qualquer preço, estaríamos, isso sim, dando uns bons passos para trás no quesito tradução.
Em meados do século passado, nos anos 1950, Paulo Rónai, grande intelectual e tradutor húngaro radicado no Brasil, escreveu um ensaio que deveria ser relido com atenção, "Traduções Indiretas". Nele, conta que um editor, muito amigo seu, ao escolher um tradutor, preferia um escritor experiente a um estudioso do idioma de partida que escrevesse um português enviesado.
Para Rónai, o escritor e o estudioso deveriam formar uma parceria, cujas habilidades e conhecimentos se completariam. Ganharíamos muito se conhecêssemos mais e melhor as ideias cada dia mais atuais desse precursor dos estudos da tradução no Brasil.
Sobre as traduções indiretas, a partir de uma outra versão, e não do original, Rónai nos lembra que, na sua época, inexistindo "uma classe de tradutores", muitas eram feitas do francês, mas esse procedimento levou a um engessamento da escrita, o que, em consequência, impedia o estilo de se "adaptar às sinuosidades do pensamento concebido em qualquer outra língua".
No Brasil, o Sintra (Sindicato Nacional dos Tradutores) foi fundado em 1988, quando se reconheceu oficialmente a profissão de tradutor. Como se lê na página do sindicato, desde sua inscrição no Ministério do Trabalho e Previdência Social, este é "o órgão que representa os tradutores e intérpretes em todo o território nacional".
Mais recentemente, em 2023, surgiu o Quem Traduziu, coletivo de tradutoras que defende a ideia de que "a tradução literária é um trabalho autoral, criativo e artístico, que envolve uma série de escolhas e reflete a sensibilidade e a ética de quem traduz".
O coletivo tem feito publicamente, desde então, uma série de justas reivindicações, merecendo espaço generoso em feiras e festivais literários. No entanto, diante do panorama que tentei traçar aqui, pergunto quão efetiva tem sido a luta de todos os tradutores deste país em favor da tradução como arte, sem abrir mão da visibilidade dos profissionais dessa área.
Retomo o primeiro parágrafo e a ideia de "milagre" de que fala Calvino ao tratar a passagem de um texto de uma língua para outra. Essa opinião parece dialogar com a do seu conterrâneo, o filósofo Giorgio Agamben, para quem a "felicidade" é crer no divino e não aspirar alcançá-lo.
Diria que o tradutor, na minha concepção, crê no milagre e no divino sabendo que são inalcançáveis, uma vez que sua matéria-prima é a escrita, a qual, como lembra Agamben, se move "conscientemente entre o dizível e o indizível" (tradução de Selvino José Assmann). O fato de termos certeza de que não alcançaremos por intermédio da palavra outra cultura, mesmo conhecendo sua língua ou usando a IA, nos leva a seguir dialogando com ela.
No início do século 21, Giorgio Agamben afirmou que o capitalismo, como religião moderna por excelência, se tornou o "improfanável absoluto para todos nós". É disso que falamos quando fechamos cursos considerados "inúteis", quando delegamos a tradução de outra cultura à máquina em nome da rapidez exigida pelo mercado etc.
Por isso, o "dever político da próxima geração" é seguir profanando, conforme defendeu o filósofo italiano.
Fonte: Folha de S. Paulo/Dirce Waltrick do Amarante/Professora, ensaísta e tradutora. Autora, entre outros, de "Metáforas da Tradução" e "Interferência: Censura, Pagamento e Outros Temas Contemporâneos", ambos publicados pela editora Iluminuras em 31/05/2026