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Beco da Velha, Livro Inédito de Tania Faillace
Beco da Velha, Livro Inédito de Tania Faillace

UM BECO AINDA INÉDITO

Tania Faillace levou quase 20 anos escrevendo BECO DA VELHA.

 

Três milhões de palavras, em um total de 7.748 páginas. Cerca de 200 personagens, espalhados por 19 volumes e dois grandes eixos narrativos, que ocorrem de forma alternada e convergente no decorrer das décadas de 1960 e 1970. Mais de mil ilustrações, incluindo fotos, montagens, desenhos e miniaturas, tudo feito pela própria escritora. Um trabalho colossal, que constrói uma ponte entre o épico e a literatura popular. E que segue inédito até hoje, mais de 20 anos depois de sua conclusão.

 

Publicar BECO DA VELHA é a grande tarefa que a escritora e jornalista gaúcha Tania Faillace estabelece para si mesma. “(Esse projeto) é a minha loucura", diz ela, divertida. A obra está tão presente que modelos em massa epóxi, feitas por ela a partir de cenas da epopeia, decoram sua casa na Capital. Aos 80 anos, a autora busca editores interessados, certamente uma das mais ambiciosas da literatura moderna brasileira.

 

A obra mais desafiadora da carreira de Tania começou a ser escrita em 1976. A ideia, conta, surgiu a partir do “apertamento” sofrido pelo ambiente cultural na ditadura militar. “Durante muito tempo, fiquei fora desses espaços, inclusive porque era prudente ficar um pouco recolhida. Mas as ideias fervilhavam na minha cabeça, e foi surgindo essa vontade de realizar uma epopeia brasileira. Mas não uma epopeia típica. Algo que fosse baseado no popular, mas sem lances popularescos.”

 

Sair da imaginação para a escrita envolveu um amplo trabalho de pesquisa, que a levou a viajar para diferentes áreas do país. “Queria falar do chão, da falta de esperança, e de esperança também. Foi um mergulho, basicamente, na miséria”, conta ela, que esteve em lugares tão díspares quanto as minas de Serra Pelada e na Amazônia, onde visitou lugares marcados pela Guerrilha do Araguaia. Os 19 volumes de BECO DA VELHA tratam de uma comunidade popular em Porto Alegre, que se ergue em torno de uma igreja pentecostal. Esse ambiente em crescimentoi corre em paralelo à saga de Maria Geneci, personagem que perpassa a história e as realidades regionais do Brasil e da América Latina. Em determinado momento, o Beco e a heroína se encontram, em dois trajetos que trazem muito do mosaico cultural e humano que constitui o Brasil.

 

Anos antes de iniciar sua obra mais ousada, Tania Faillace deu seus primeiros passos na literatura graças à ajuda do autor de outro grande épico. A jovem foi apadrinhada por Erico Verissimo, autor do seminal O TEMPO E O VENTO, e, a partir disso, chegou à Editora Globo, na qual publicou suas duas primeiras novelas – FUGA (1964) e ADÃO E EVA (1965). Até então, sua trilha artística apontava para a pintura, tendo realizado, com apenas 19 anos, uma exposição de quadros na Capital. Apesar de pouco espaço na imprensa de então, a mostra foi um sucesso, recorda ela. “Mas não vendi nada, porque os quadros não estavam à venda. Eu só estava me exibindo, mesmo”, conta, dando risadas.

 

Para cuidar da mãe doente, Tania engajou-se em diferentes empregos, em uma trajetória que a levou ao jornalismo e, de quebra, trouxe a ela uma ampla experiência com a alma humana. Influenciada pelo trabalho nas redações, sua obra foi mudando de enfoque, deixando de lado a reflexão intimista em favor de uma abordagem mais social e popular. Obras como O 35º ANO DE INÊS (1971), VINDE A MIM OS PEQUENINOS (1977), TRADIÇÃO, FAMÍLIA E OUTRAS ESTÓRIAS (1978) e MARIO /VERA (1983) refletem essa transformação, também presente na premiada peça teatral IVONE E SUA FAMÍLIA (1978). Um processo que encontrou em BECO DA VELHA concretização radical.

 

O último volume foi concluído em 1994. Até o momento, a série de livros só existe em uma pequena tiragem privada, financiada pela própria Tania para divulgar a obra entre agentes literários e editoras. Uma edição completa foi doada, em junho deste ano, para o acervo da Biblioteca Pública do Estado, junto com exemplares de todos os demais livros de sua carreira.

 

A riqueza de personagens e tramas paralelas poderias ir além das páginas impressas, imagina a autora. “Acho que é uma obra muito rica de potencialidades, poderia virar uma série de televisão ou filmes. Mas não tenho esses contatos. Eu me apresento, digo que tenho um romance de mais de 7 mil páginas... Vão chamar uma viatura para me internar”, brinca. Fica a expectativa de que leitores e leitoras tenham, em um futuro não muito distante, a chance de se aventurar na complexa tapeçaria de BECO DA VELHA.

 

 

Fonte: Jornal do Comércio/Panorama/Igor Natusch em 07/08/2019.