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Denúncia: Uso da IA para Embranquecer Personagens
Denúncia: Uso da IA para Embranquecer Personagens

ESCRITORAS DENUNCIAM USO DE IA PARA EMBRANQUECER PERSONAGENS NEGROS EM ILUSTRAÇÕES NO PINTEREST

Perfis de cunho racista modificaram artes originais para apagar a identidade racial de personagens. Administradora da conta chamou a reação de ‘alvoroço’ e Pinterest comentou denúncia por meio de nota; entenda

 

Um grupo de escritoras nacionais independentes, ilustradores e criadores de conteúdo sobre literatura se uniu para denunciar perfis na rede social Pinterest que têm usado inteligência artificial para embranquecer personagens literários negros em ilustrações oficiais.

 

As imagens, compartilhadas inicialmente em uma conta que saiu do ar e, mais tarde, em um perfil denominado “White Soul” (“alma branca”, em português), utilizam da tecnologia para modificar artes originais encomendadas aos artistas pelas autoras e apagar a identidade racial de personagens negros, alterando tom de pele, traços do rosto e textura dos cabelos.

 

O caso ganhou repercussão nas últimas semanas entre a comunidade literária online e gerou campanhas para denunciar a conta ao Pinterest e retirá-la do ar, mas sem sucesso.

 

Estadão entrou em contato com a empresa, que, após a publicação original deste texto, mandou o seguinte comunicado:

 

“Contas que promovem atividades de ódio e preconceito não são permitidas no Pinterest. Isso inclui alterar imagens para desumanizar, apagar ou diminuir integrantes de grupos protegidos. Nós aplicamos nossas Diretrizes da Comunidade com rigor e desativamos essa conta de acordo com nossa Política de Atividades Odiosas.”

 

A reportagem também contatou o perfil que publicou as imagens de cunho racista. “Para ser franca, não tenho muito o que dizer a respeito desse alvoroço todo”, escreveu a internauta, que não revela a própria identidade. Após a abordagem, o perfil retirou as ilustrações do ar, mas não foi desativado.

 

Entenda o caso

As ilustrações alteradas foram identificadas pela primeira vez no dia 12 de novembro. O perfil - que usava o nome de usuário @marybrando17 e agora está fora do ar - dizia que havia sido criado para “realçar a beleza dos brancos europeus, loiros e ruivos, as pessoas mais lindas que existem”.

 

As escritoras Izzy Psendziuk e M. Victoria Spido, cujos livros foram publicados de maneira independente, foram as primeiras a divulgar a situação nas redes sociais. Em seguida, outras autoras e ilustradoras identificaram seus personagens e artes modificadas no mesmo perfil.

 

“Nós denunciamos o perfil da racista como atividades que promovem discurso de ódio e a posição do Pinterest foi que ela não estava infringindo nenhuma lei da plataforma”, explicou ao Estadão a ilustradora freelancer Gabriela Gois, que teve suas artes modificadas sem autorização.

 

Gabriela fez ilustrações para os romances E Se Fosse Verdade? Todas As Nossas Mentiras, de Tatiane Biasi. Quando soube da situação, a escritora acionou sua equipe jurídica para investigar o perfil. Tatiane afirma ter descoberto informações sobre a administradora da conta.

 

“Conseguimos localizar a pessoa e mandamos uma notificação extrajudicial. Achávamos que era uma menor de idade, mas descobrimos a data de nascimento e chegamos à conclusão que não era”, explicou. A notificação extrajudicial pedia a exclusão das imagens adulteradas e uma retratação pública para com as autoras e ilustradoras lesadas.

 

A retratação foi publicada no dia 14 de novembro, mencionando apenas Tatiane. “Boa noite a todos, eu, dona do perfil, venho aqui me desculpar por uso indevido de imagens das artistas: Tatiane de Biasi Caldara e por implementar ideias discriminatórias decorrentes de uso de IA. Peço desculpas e isso não vai mais ocorrer”, dizia a mensagem. No dia seguinte, a conta foi retirada do ar.

 

No dia 25 de novembro, contudo, um novo perfil foi criado repercutindo o mesmo tipo de conteúdo. A pasta do Pinterest com as ilustrações alteradas levava o nome de “Enaltecendo a beleza de pessoas brancas”.

 

Em contato com a usuária, o Estadão questionou se a administradora estava envolvida com a primeira conta. Ela contatou a reportagem por meio de outro perfil, de usuário @almabranca00, e disse que apenas “se inspirou na ideia que a dona do outro perfil quis passar”.

 

Nesta outra conta, ela voltou a publicar ilustrações alteradas. Em uma publicação, escreveu: “Podem continuar me denunciando à vontade, meus amores. Eu simplesmente posso fazer outra.”

 

Autora diz ter dificuldade de contato com o Pinterest

A escritora Isa Gomes teve ilustrações de três de seus livros adulteradas. A do romance Contrato Improvável, feita pela ilustradora Eduarda Do Nascimento, retrata o casal principal do livro no dia de seu casamento. A protagonista, uma mulher negra, foi alterada em duas imagens diferentes.

 

Isa chegou a abrir um boletim de ocorrência em uma delegacia de sua cidade, Castanhal (PA). “O delegado de início não entendeu direito o motivo de ser algo racista (por isso, eu acredito que muitas pessoas de cara também não entendem). Só quando eu expliquei foi que ele entendeu a gravidade da situação”, relata ela.

 

A autora também relatou dificuldade em ter um retorno da plataforma sobre o caso. “Infelizmente, uma nova conta foi aberta e o Pinterest não aceita nossas denúncias (nem de autoras, desenhistas ou leitoras). Também existe a problemática de que todas essas artes estão alimentando as IAs, ou seja, não temos leis para isso”, acrescentou.

 

“As nossas artistas estão tendo seus traços usados para uma coisa que elas nem autorizaram, além da violação da nossa propriedade intelectual. É um problema racial em maior instância, mas também um descaso do Pinterest por deixar-nos sem amparo”, afirmou.

 

A reportagem apurou ainda que duas denúncias anônimas foram feitas ao Ministério Público do Estado do Maranhão.

 

Fonte: Estadão/Julia Queiroz em 02/12/2025