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O Bar Luva Dourada, de Fatih Akin
O Bar Luva Dourada, de Fatih Akin

JORNADA DE UM SERIAL KILLER ALEMÃO

 

Nome de destaque do cinema internacional, diretor Fatih Akin fala a ZH sobre seu controverso filme O BAR LUVA DOURADA

Filme: Suspense, Alemanha, 2019, 110min, 18 anos.

 

O cineasta alemão de ascendência turca Fatih Akin, 45 anos chocou o Festival de Berlim, em fevereiro deste ano, com o seu mais recente filme, O BAR LUVA DOURADA, que estreou esta semana (em julho) nos cinemas brasileiros – (..............). Desta vez, entretanto, o diretor não traz para o centro de sua obra a questão do imigrante na Alemanha, temática que o fez ficar conhecido em todo o mundo, sobretudo a partir de 2004, quando ganhou o Urso de Ouro na Berlinale com o filme CONTRA A PAREDE.

 

Em O BAR LUVA DOURADA, Akin apostou em um filme baseado na história real de um serial killer que chocou Hamburgo, segunda cidade mais populosa na Alemanha, nos anos 1970. Adaptação cinematográfica do livro de Heinz Strunk, a produção conta a história de Fritz Honka, assassino em série que matou pelo menos quatro mulheres entre 1971 e 1974 e que mantinha parte dos corpos de suas vítimas em casa.

 

Em conversa por telefone com Zero Hora, Akin disse ter se surpreendido com a brutalidade de “um livro muito forte” e se questionou se seria “diretor suficiente para colocar a história na tela”:

- Foi um desafio. É sobre a minha cidade, sobre a minha vizinhança. Eu nasci naquelas ruas e ainda moro por ali, onde o cara cometeu aqueles crimes. Conheci pessoas que tiveram contato com ele. Era um serial killer que, de alguma forma, estava muito perto da minha família e de mim – afirma o diretor de EM PEDAÇOS, que venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro no ano passado.

 

Honka é interpretado por Jonas Dassler, um jovem ator de 23 anos que, durante as filmagens, após duas horas e meia diárias de maquiagem, com próteses no nariz e nos dentes, se transformava no assassino com uma aparência quase monstruosa. Os 10 primeiros minutos do filme – não recomendado para menores de 18 anos, vale ressaltar – formam a cena do protagonista se livrando do corpo de sua primeira vítima. É apenas uma ideia do que o espectador vai encontrar durante as quase duas horas de longa, marcado por cenas de violência que, em alguns momentos, tornam-se difíceis de acompanhar.

 

 

IMIGRANTES

 

Se embrulham o estômago os momentos em que Honka abusa sexualmente de suas vítimas e as mata dentro de seu claustrofóbico apartamento, não menos cruéis são as cenas no bar Zum Goldenen Handschuh, que dá título ao filme e onde o serial killer seduzia as mulheres, em sua maioria mais velhas, para depois as levar para sua casa. Os frequentadores do local, que existe até hoje em St. Pauli, bairro boêmio de Hamburgo, são o retrato de uma parcela da população Alemã pós-Segunda Guerra que tentava sobreviver, traumatizada, em meio a graves problemas de alcoolismo. Hamburgo, assim como em outros filmes do diretor, cuja família se mudou da Turquia para a Alemanha, pode ser considerada também personagem central de O BAR LUVA DOURADA.

- Tenho uma relação de amor e ódio com a minha cidade. Minha família toda se mudou. Eu, nunca. Nasci no mesmo local em que meus filhos. Isso é muito novo. E sinto que tenho um código genético que me leva a sair para viver em outro lugar, mas eu tenho uma vida social em Hamburgo. Tenho a minha empresa (a produtora Bombero International), minha família. Todo mundo está aqui. Tenho que encontrar material na cidade. E é isso – conta o diretor, classificado dentro da escola conhecida como “Migrantekino”, isto é, dos imigrantes que fazem cinema na Alemanha.

 

Explorada em quase todos os filmes de Akin, a questão aparece como coadjuvante em O BAR LUVA DOURADA. A família que mora no apartamento abaixo do de Honka é de gregos, que são alvo do preconceito do serial killer. É de lá, segundo o protagonista, que viria o fedor que causa repugnância nas pessoas que frequentam o local onde mora (e não dos corpos em decomposição escondidos ali).

 

Ao optar por um tema que não explora a sua origem turca, o diretor, segundo a avaliação de alguns críticos, teria conquistado sua emancipação ao produzir uma obra que não condiz com a expectativa dos que aguardam dele algum filme ligado à política da Turquia.

- Eu não posso fazer sempre algo sobre a minha origem. Não quero ficar limitado a isso – declara Akin. – É difícil fazer algo diferente daquilo a que as pessoas estão acostumadas. Mas, para mim, é importante, como artista, trabalhar com a verdade. Não estou falando da realidade da vida lá fora, estou falando da minha própria verdade, da verdade que eu tenho no meu coração e na minha mente. Não gosto do artista que não trabalha com a sua verdade. Não respeito. Se eu fosse agora fazer apenas coisas relacionadas aos turcos, não seria honesto, seria apenas para agradar às pessoas que dependem disso. Para mim é importante se mover para frente.

 

E completa, em tom de desabafo:

- Estou ficando velho, cara. Apenas fiz o filme, sem pensar muito. Me expressei: foi o que fiz, e estou muito orgulhoso.

 

 

Fonte: Jornal Zero Hora/Segundo Caderno/Rafael Balsemão (Rafael.balsemao@zerohora.com.br) em 19/07/19